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imperador romano (306–337) e primeiro a se converter ao cristianismo

Constantino

Constantino

O essencial

data de nascimento27 de fevereiro de 272
data de morte22 de maio de 337
ocupaçãopolítico, militar, soberano
local de nascimentoNiš
local de morteNicomédia
cônjugeMinervina
Todos os dados da infocaixa 12
Reinado
25 de julho de 306a 22 de maio de 337
Predecessores
Constâncio IGalério
Sucessores
Constantino IIConstâncio IIConstante I
Coimperadoresou rivais
Galério (306–311)Valério Severo (306–307)Magêncio (306–312)Maximiano (306–308)Licínio (308–324)Maximino II (310–313)Valério Valente (316–317)Martiniano (324)
Nascimento
c. 27 de fevereiro de 272Naísso, Mésia Superior, Império Romano
Morte
22 de maio de 337 (65 anos)Nicomédia, Bitínia, Império Romano do Oriente
Sepultamento
Igreja dos Santos Apóstolos
Esposas
MinervinaFausta
Dinastia
Constantiniana
Pai
Constâncio I
Mãe
Helena
Religião
Cristianismo(anteriormente politeísmo romano)

Constantino I (Naísso, 27 de fevereiro de 272 – Nicomédia, 22 de maio de 337), conhecido como Constantino, o Grande, foi um imperador romano proclamado Augusto por suas tropas em 25 de julho de 306, passando a governar uma parte cada vez maior do Império Romano até sua morte. É lembrado sobretudo por ter sido o primeiro imperador romano a converter-se ao cristianismo, fato que marcou profundamente o curso da história religiosa, política e cultural do Ocidente e do Oriente cristão.

Durante seu reinado, Constantino envolveu-se em uma série de guerras civis que culminaram na derrota de seus rivais Magêncio e Licínio, consolidando sua autoridade como imperador único. Paralelamente, conduziu campanhas militares bem-sucedidas contra diversos povos considerados bárbaros, entre eles os francos, alamanos, visigodos e sármatas, assegurando as fronteiras do império mesmo após a reconquista da Dácia, região que havia sido abandonada no século anterior. Seu governo caracterizou-se por um esforço de estabilização política e militar em um período de profundas transformações internas.

A conversão de Constantino ao cristianismo, tradicionalmente associada à visão da cruz antes da Batalha da Ponte Mílvia (312), inaugurou uma nova relação entre o Império Romano e a Igreja. Embora seu percurso religioso tenha sido gradual, seu apoio ao cristianismo manifestou-se de modo concreto por meio de leis favoráveis aos cristãos, do fim das perseguições sistemáticas por meio do Édito de Milão (313) e da promoção da unidade da fé, destacando-se a convocação do Concílio de Niceia, em 325, decisivo para a formulação da doutrina cristológica.

Um dos atos mais duradouros de seu reinado foi a fundação de uma nova capital imperial em Bizâncio, à qual deu o nome de Nova Roma. A cidade, contudo, passou a ser conhecida como Constantinopla, em sua homenagem, e tornar-se-ia a capital do Império Romano do Oriente por mais de mil anos. Por esse motivo, Constantino é frequentemente considerado um dos fundadores do mundo bizantino. A cidade, hoje chamada Istambul, permaneceu como centro político e cultural de sucessivos impérios até o século XX.

Fontes

Constantino era um governante de grande importância histórica e sempre foi uma figura controversa. As flutuações na reputação de Constantino refletem a natureza das fontes antigas de seu reinado. Estas são abundantes e detalhadas, mas foram fortemente influenciadas pela propaganda oficial do período, e são muitas vezes unilaterais. Não há histórias de sobreviventes ou biografias que lidaram com a vida de Constantino e do Estado. Os mais próximos subsídios são a Vida de Constantino de Eusébio de Cesareia, uma obra que é uma mistura de elogio e hagiografia. Escrito entre 335 e cerca de 339, a Vita exalta virtudes morais e religiosas de Constantino. A Vita cria uma imagem tendenciosamente positiva de Constantino, de que os historiadores modernos vêm frequentemente contestando a fiabilidade. A mais completa vita secular de Constantino é do anónimo Origo Constantini. Uma obra de data incerta, o Origo concentra-se em acontecimentos militares e políticos, em detrimento de assuntos culturais e religiosos.

Ascensão a Augusto do Ocidente

Termas construídas por Constantino em Augusta dos Tréveros (Tréveris), capazes de atender milhares de pessoas
Termas construídas por Constantino em Augusta dos Tréveros (Tréveris), capazes de atender milhares de pessoas

Nascido em Naísso, na Mésia Superior (actual Niš na Sérvia), filho de Constâncio Cloro (ou Constâncio I Cloro) e da filha de um casal de donos de uma albergaria na Bitínia, Helena de Constantinopla, Constantino teve uma boa educação — especialmente por ser filho de uma mulher de língua grega e haver vivido no Oriente grego, o que facilitou-lhe o acesso à cultura bilíngue própria da elite romana — e serviu no tribunal de Diocleciano depois do seu pai ter sido nomeado um dos dois césares, na altura um imperador júnior, na Tetrarquia em 293. Embora a sua condição junto de Diocleciano fosse em parte a de um refém, Constantino serviu nas campanhas do césar Galério e de Diocleciano contra os sassânidas e os sármatas. Aquando da abdicação conjunta de Diocleciano e Maximiano em 305, Constâncio seria proclamado augusto, mas Constantino seria descartado como césar em proveito de Valério Severo (também conhecido modernamente como Severo II, título que jamais usou, para não ser confundido com o grande imperador do século anterior, Septímio Severo).

Pouco antes da morte do seu pai, em 25 de julho de 306, Constantino conseguiu a permissão de Galério para se reunir a ele no Ocidente, chegando a fazer uma campanha juntamente com Constâncio Cloro contra os pictos, estando junto do leito de morte do seu pai em Ebóraco (atual Iorque, na Inglaterra) na Britânia, o que lhe permitiu impor o princípio da hereditariedade em seu proveito, proclamando-se "césar" e sendo reconhecido como tal por Galério, então feito "augusto" do Oriente. Desde o início de seu reinado, assim, Constantino tinha o controle da Britânia, Gália, Germânia e Hispânia, com sua capital em Augusta dos Tréveros, cidade que fez embelezar e fortificar.

Nos dezoito anos seguintes, combateu uma série de batalhas e guerras que o fizeram o governador supremo do Império Romano. Como Maximiano desejava retomar a sua posição de augusto, da qual se havia afastado a contragosto juntamente com Diocleciano, Constantino recebeu-o na sua corte e aliou-se a ele por um casamento em 307 com a filha de sete anos de Maximiano, Fausta, o que lhe permitiu ser reconhecido tacitamente como Augusto em 308 por Galério numa conferência tetrárquica em Carnunto (atual Petronell-Carnuntum na Áustria). Em 309, no entanto, Constantino enfrentaria o seu sogro, que tentava recuperar abertamente o poder, capturando-o em Marselha e mandando assassiná-lo. Em 310, Constantino seria formalmente reconhecido como Augusto por Galério. Severo havendo sido entrementes eliminado, em 307, por Magêncio, filho de Maximiano que se havia proclamado imperador em Roma, Constantino deveria acabar por enfrentar o seu cunhado para conseguir o domínio completo do Ocidente romano. Após uma série de mediações fracassadas e lutas confusas, Constantino, após apoiar o usurpador africano Lúcio Domício Alexandre, cortando o fornecimento de trigo de Roma, de 308 a 309, desceu em 312 até Itália para eliminar Magêncio.

Essas guerras civis constantes e prolongadas fizeram de Constantino, antes de mais nada, um reformador militar, que, para aumentar o número de tropas à sua disposição imediata, constituiu o cortejo militar do imperador (comitatus) num corpo de tropas de elite autossuficiente - um verdadeiro exército de campanha — principalmente pelo recrutamento de grande número de germanos que se apresentavam ao exército romano nos termos de diversos tratados de paz, a começar pelo rei alamano Croco II, que teve um papel decisivo na aclamação de Constantino como Augusto.

Imperador (306–337)

Áureo de Constantino; a inscrição em torno do retrato é "Constantinus P[ius] F[elix] Aug[ustus]"
Áureo de Constantino; a inscrição em torno do retrato é "Constantinus P[ius] F[elix] Aug[ustus]"
Termas públicas (thermae; Termas Imperiais de Tréveris) erguidas em Tréveris por Constantino, com mais de 100 metros (328 ft) de largura por 200 metros (656 ft) de comprimento e capacidade para atender a milhares de pessoas simultaneamente, projetadas para…
Termas públicas (thermae; Termas Imperiais de Tréveris) erguidas em Tréveris por Constantino, com mais de 100 metros (328 ft) de largura por 200 metros (656 ft) de comprimento e capacidade para atender a milhares de pessoas simultaneamente, projetadas para…
Parte superior original de uma estátua de Constantino ou de seu filho Constantino II, que provavelmente decorava as Termas de Constantino em Roma
Parte superior original de uma estátua de Constantino ou de seu filho Constantino II, que provavelmente decorava as Termas de Constantino em Roma
Busto de Dresden do imperador Maxêncio, que foi derrotado por Constantino na Batalha da Ponte Mílvia.
Busto de Dresden do imperador Maxêncio, que foi derrotado por Constantino na Batalha da Ponte Mílvia.
Um sólido de ouro do Constantino Invicto acompanhado pela divindade Sol Invicto atrás de si, cunhado em 313 d.C. O recurso à imagem de Sol enfatizava a condição de Constantino como sucessor legítimo de seu pai, agradava às elites letradas da Gália e…
Um sólido de ouro do Constantino Invicto acompanhado pela divindade Sol Invicto atrás de si, cunhado em 313 d.C. O recurso à imagem de Sol enfatizava a condição de Constantino como sucessor legítimo de seu pai, agradava às elites letradas da Gália e…
Afresco romano em Tréveris, Alemanha, retratando possivelmente Constância.
Afresco romano em Tréveris, Alemanha, retratando possivelmente Constância.
Batalha de Constantino e Maxêncio (detalhe de afresco executado por Giulio Romano na Sala de Constantino nos Quartos de Rafael nos Museus Vaticanos), cópia de c. 1650 por Lazzaro Baldi, atualmente na Universidade de Edimburgo.
Batalha de Constantino e Maxêncio (detalhe de afresco executado por Giulio Romano na Sala de Constantino nos Quartos de Rafael nos Museus Vaticanos), cópia de c. 1650 por Lazzaro Baldi, atualmente na Universidade de Edimburgo.
A Ponte Mílvia (Ponte Milvio) sobre o Tibre, ao norte de Roma, onde Constantino e Maxêncio travaram a Batalha da Ponte Mílvia.
A Ponte Mílvia (Ponte Milvio) sobre o Tibre, ao norte de Roma, onde Constantino e Maxêncio travaram a Batalha da Ponte Mílvia.
Medalhão de prata de 315; Constantino ostentando o símbolo do Chi-Rho na crista de seu elmo.
Medalhão de prata de 315; Constantino ostentando o símbolo do Chi-Rho na crista de seu elmo.
Detalhe de Constantino no Arco de Constantino, cuja edificação teve início após sua entrada solene em Roma.
Detalhe de Constantino no Arco de Constantino, cuja edificação teve início após sua entrada solene em Roma.
Áureo de ouro do imperador Licínio.
Áureo de ouro do imperador Licínio.
Medalhão de prata cunhado por Constantino I para celebrar a fundação de Constantinopla.
Medalhão de prata cunhado por Constantino I para celebrar a fundação de Constantinopla.
12 imagens

A porção do império sob a jurisdição de Constantino compreendia a Britânia, a Gália e a Hispânia. Ele comandava um dos maiores exércitos romanos, aquartelado ao longo da fronteira estrategicamente vital do Reno. Ele permaneceu na Britânia após sua aclamação como imperador, repelindo as tribos dos pictos e consolidando seu controle sobre as dioceses do noroeste. Concluiu as obras de fortificações militares iniciadas durante o governo de seu pai e ordenou a restauração das vias da região. Em seguida, partiu para Augusta Treverorum (Tréveris) na Gália, a capital tetrárquica do noroeste do Império Romano. Ao tomarem conhecimento da aclamação de Constantino, os francos invadiram a Gália transpondo o Baixo Reno durante o inverno de 306–307. Constantino rechaçou-os para além do Reno e capturou os reis Ascárico e Merogaiso; os monarcas bárbaros e seus guerreiros foram lançados às feras no Anfiteatro de Tréveris durante as celebrações triunfais de adventus (chegada solene) que se seguiram.

Constantino deu início a uma ampla expansão de Tréveris. Reforçou a muralha que circundava a cidade com torres militares e portões fortificados, e iniciou a construção de um complexo palaciano no setor nordeste da urbe. Ao sul de seu palácio, ordenou a ereção de uma grandiosa basílica de audiências (sala de recepção formal) e de um colossal edifício termal imperial. Patrocinou inúmeros projetos arquitetônicos por toda a Gália durante seu governo como soberano do Ocidente, com destaque para Augustoduno (Autun) e Arelate (Arles). Segundo Lactâncio, Constantino adotou uma política de tolerância para com o cristianismo, embora talvez ainda não houvesse abraçado formalmente a fé cristã. Não há consenso historiográfico acerca das convicções religiosas de Constantino no início de seu principado, sugerindo alguns pesquisadores uma adesão ao cristianismo desde a juventude. Independentemente disso, ele provavelmente considerou a tolerância uma política mais sensata e pragmática do que a perseguição aberta, além de um meio estratégico para distinguir-se do grande perseguidor Galério. Decretou o fim formal das perseguições e restituiu aos cristãos todos os bens e propriedades confiscados sob o primeiro dos editos persecutórios.

Constantino era ainda pouco experimentado e pesava sobre ele certa pecha de ilegitimidade; apoiava-se na reputação de seu pai em sua propaganda inicial, que concedia tanto destaque aos feitos paternos quanto aos seus próprios. Sua perícia militar e seus projetos arquitetônicos, contudo, logo proporcionaram aos panegiristas a oportunidade de traçar paralelos elogiosos entre pai e filho, tendo Eusébio observado que Constantino representava uma renovação, por assim dizer, em sua própria pessoa, da vida e do reinado de seu pai. A iconografia monetária, a estatuária e a oratória constantinianas revelam também patente desdém para com os bárbaros além das fronteiras. Ele mandou cunhar uma emissão de moedas após sua vitória sobre os alamanos representando guerreiros alamanos em pranto e súplica sob a legenda os alamanos conquistados e a epígrafe alegria dos romanos (gaudium Romanorum). Havia escassa complacência para com tais adversários; como declarou seu panegirista: É uma clemência estúpida poupar o inimigo derrotado.

Rebelião de Maxêncio

Após o reconhecimento de Constantino como césar por Galério, o retrato oficial de Constantino foi enviado a Roma, conforme o costume. Maxêncio zombou da figura retratada qualificando-o como filho de uma meretriz e lamentou sua própria falta de poder. Invejoso da autoridade de Constantino, Maxêncio usurpou o título imperial em 28 de outubro de 306. Galério recusou-se a reconhecê-lo, mas não logrou depô-lo. Severo foi enviado contra Maxêncio em abril de 307, mas, no decurso da expedição, os exércitos de Severo, anteriormente subordinados ao pai de Maxêncio, Maximiano, desertaram, tendo Severo sido capturado e encarcerado. Maximiano, impelido a abandonar a aposentadoria pela rebelião do filho, partiu para a Gália a fim de conferenciar com Constantino. Ofereceu-lhe a mão de sua filha Flávia Máxima Fausta em casamento e sua elevação à dignidade de augusto. Em contrapartida, Constantino reafirmaria a antiga aliança familiar entre Maximiano e Constâncio Cloro e prestaria apoio à causa de Maxêncio na península Itálica. Constantino anuiu e consorciou-se com Fausta em Tréveris no verão de 307. Constantino prestou a Maxêncio um apoio modesto, concedendo-lhe reconhecimento político formal.

Constantino manteve-se distante do conflito itálico, contudo. Ao longo da primavera e do verão de 307, ele havia partido da Gália rumo à Britânia para evitar qualquer envolvimento na convulsão peninsular; agora, em vez de enviar reforços militares a Maxêncio, destacou suas legiões contra as tribos germânicas ao longo do Reno. Em 308, realizou incursões no território dos brúcteros e construiu uma ponte sobre o Reno em Colônia Agripina (Colônia). Em 310, marchou em direção ao Baixo Reno e combateu os francos. Nos períodos sem campanhas militares, percorria seus domínios exibindo sua benevolência cívica e fomentando a economia e as artes. A recusa em tomar parte na guerra intestina elevou sua popularidade entre os súditos e consolidou sua base de poder no Ocidente. Maximiano regressou a Roma no inverno de 307–308, mas logo rompeu relações com o filho. No início de 308, após uma tentativa frustrada de usurpar a posição de Maxêncio, Maximiano buscou asilo na corte de Constantino.

Em 11 de novembro de 308, Galério convocou uma conferência imperial na cidade militar de Carnunto (Petronell-Carnuntum, Áustria) para solucionar a instabilidade nas províncias ocidentais. Participaram do encontro Diocleciano, regressado temporariamente da aposentadoria, Galério e Maximiano. Maximiano foi forçado a abdicar novamente e Constantino foi rebaixado à condição de césar. Licínio, um dos antigos camaradas de armas de Galério, foi nomeado augusto para as regiões ocidentais. O novo arranjo durou pouco: Constantino recusou-se a aceitar o rebaixamento hierárquico e continuou a intitular-se augusto em suas cunhagens monetárias, embora outros integrantes da Tetrarquia o designassem como césar nas suas. Maximino sentiu-se ultrajado por ter sido preterido nas promoções enquanto o recém-chegado Licínio fora elevado ao cargo de augusto, exigindo que Galério o promovesse. Galério propôs designar tanto Maximino quanto Constantino como filhos dos augustos (filii Augustorum), mas nenhum dos dois aceitou o título intermediário. Na primavera de 310, Galério já se referia a ambos formalmente como augustos.

Rebelião de Maximiano

Em 310, o destituído Maximiano rebelou-se contra Constantino enquanto este se encontrava em campanha militar contra os francos. Maximiano havia sido enviado para o sul, até Arles, à frente de um contingente do exército de Constantino, a fim de prevenir incursões de Maxêncio na Gália meridional. Anunciou publicamente que Constantino havia morrido e assumiu a púrpura imperial. Não obstante a promessa de vultosas doações em dinheiro (donativum) a quem o aclamasse imperador, a maior parte do exército de Constantino permaneceu leal ao seu soberano, e Maximiano foi obrigado a fugir. Ao ser informado da insurreição, Constantino suspendeu as operações contra os francos e desceu marchando rapidamente pelo curso do Reno. Em Cabilono (Chalon-sur-Saône), embarcou suas legiões em botes fluviais para navegar as águas tranquilas do Saône até as correntes mais velozes do Ródano, desembarcando em Lugduno (Lyon). Maximiano refugiou-se em Massília (Marselha), praça fortificada mais apta a resistir a um cerco prolongado do que Arles. O recurso teve pouca eficácia: cidadãos leais abriram as portas dos fundos da cidade a Constantino. Maximiano foi capturado e repreendido por suas traições. Constantino concedeu-lhe alguma clemência, mas induziu-o fortemente a cometer suicídio. Em julho de 310, Maximiano enforcou-se.

A despeito da ruptura pregressa em suas relações, Maxêncio apressou-se em retratar-se como o filho devoto de seu pai após o falecimento deste. Passou a cunhar moedas com a efígie deificada de seu progenitor, proclamando a intenção de vingar a morte de Maximiano. Constantino, inicialmente, apresentou o suicídio como uma infeliz tragédia familiar. Em 311, porém, passou a divulgar outra narrativa oficial: de acordo com esta, após ser perdoado por Constantino, Maximiano teria planejado assassiná-lo enquanto dormia. Fausta descobriu o complô e alertou Constantino, que colocou um eunuco em seu próprio leito. Maximiano foi surpreendido em flagrante ao apunhalar o eunuco, sendo-lhe concedida a opção pelo suicídio, a qual aceitou. Além da ofensiva de propaganda, Constantino decretou uma damnatio memoriae sobre Maximiano, destruindo inscrições epigráficas que a ele faziam menção e desmantelando qualquer monumento público que ostentasse sua efígie.

A morte de Maximiano exigiu uma redefinição na imagem pública de Constantino. Já não podendo apoiar-se no vínculo dinástico com o idoso imperador Maximiano, ele necessitava de uma nova fonte de legitimidade. Em discurso pronunciado na Gália em 25 de julho de 310, um orador anônimo revelou uma ligação dinástica até então desconhecida com Cláudio II, imperador do século III célebre por derrotar os godos e restaurar a ordem no império. Rompendo com os preceitos tetrárquicos, o panegírico enfatizava a prerrogativa hereditária de Constantino para governar, em detrimento dos princípios colegiais de paridade imperial. A nova ideologia expressa na oração tornava Galério e Maximiano irrelevantes para o direito régio de Constantino. De fato, o orador ressalta a ascendência em detrimento de quaisquer outros fatores: Nenhum consenso casual entre homens, nem qualquer consequência imprevista de favor, vos fez imperador, proclamou ao soberano.

A oração afasta-se igualmente da ideologia religiosa da Tetrarquia, outrora centrada nas dinastias divinas gêmeas de Júpiter e Hércules. Em vez disso, o orador proclama que Constantino vivenciou uma visão divina de Apolo e da Vitória, que lhe ofertavam coroas de louros augurando saúde e um longo reinado. À semelhança de Apolo, Constantino reconheceu a si próprio como a figura salvífica a quem seria concedido o domínio de todo o mundo, conforme outrora profetizara o poeta Virgílio. A inflexão religiosa do discurso reflete-se de modo idêntico nas moedas imperiais. No início de seu principado, a cunhagem de Constantino apresentava Marte como seu patrono; a partir de 310, Marte foi substituído pelo Sol Invicto, divindade convencionalmente associada a Apolo. Há escassos motivos para crer que tanto a genealogia claudiana quanto a teofania apolínea fossem mais do que recursos ficcionais de propaganda, mas sua difusão consolidou as pretensões de legitimidade de Constantino e ampliou sua popularidade entre os provinciais da Gália.

Guerras civis

Guerra contra Maxêncio

Em meados de 310, Galério encontrava-se demasiado enfermo para participar ativamente da política imperial. Seu ato derradeiro sobreviveu na documentação: uma carta aos provinciais afixada em Nicomédia em 30 de abril de 311 (Édito de Tolerância de Galério), proclamando a cessação das perseguições e o restabelecimento da tolerância religiosa.

Eusébio sustenta que a providência divina [...] agiu contra o perpetrador desses crimes e apresenta um relato cru e detalhado da agonia e morte de Galério:

Sem prévio aviso, declarou-se uma inflamação supurativa no meio de suas partes genitais, sucedida por uma profunda úlcera fistulosa, que consumia incuravelmente suas entranhas mais profundas. Delas brotava um formigueiro indescritível de vermes, exalando um odor pestilento, pois todo o seu volumoso corpo, mercê da gula desmedida, transformara-se, mesmo antes da moléstia, numa colossal massa de carne flácida, que então se decompunha, oferecendo àqueles que dele se aproximavam uma visão repugnante e aterradora.

Galério faleceu pouco depois da promulgação do édito, destruindo o pouco que restava do sistema tetrárquico. Maximino mobilizou suas tropas contra Licínio e ocupou a Ásia Menor. Uma paz apressada foi pactuada a bordo de uma embarcação no meio do Bósforo. Enquanto Constantino inspecionava a Britânia e a Gália, Maxêncio preparava-se para a guerra. Fortificou o norte da península Itálica e estreitou laços com a comunidade cristã autorizando a eleição do bispo Eusébio para a Diocese de Roma.

O regime de Maxêncio, contudo, era precário. Sua sustentação popular inicial desmoronou com a elevação das alíquotas fiscais e a retração comercial; revoltas populares eclodiram em Roma e em Cartago; e Domício Alexandre logrou usurpar momentaneamente a autoridade imperial na África. Por volta de 312, Maxêncio era um soberano apenas tolerado, desprovido de respaldo ativo, inclusive entre os cristãos itálicos. No verão de 311, Maxêncio mobilizou suas forças contra Constantino enquanto Licínio se achava envolvido em assuntos no Oriente. Declarou guerra a Constantino, jurando vingar o assassinato de seu pai. Para impedir que Maxêncio celebrasse uma aliança com Licínio, Constantino selou seu próprio pacto com Licínio durante o inverno de 311–312, oferecendo-lhe a mão de sua meia-irmã Constância em casamento. Maximino encarou o acordo entre Constantino e Licínio como uma afronta à sua dignidade; em resposta, enviou embaixadores a Roma propondo o reconhecimento político de Maxêncio em troca de cooperação militar, oferta prontamente aceita. Segundo Eusébio, o trânsito entre províncias tornou-se impraticável e a mobilização militar generalizou-se: não havia recanto onde não se temesse dia após dia a deflagração das hostilidades.

Os conselheiros e generais de Constantino desaconselharam um ataque preventivo contra Maxêncio; até mesmo os arúspices recomendaram cautela, afirmando que os sacrifícios haviam produzido presságios funestos. Constantino, movido por uma resolução que impressionou profundamente seus homens — levando alguns a crerem que gozava de assistência sobrenatural —, ignorou todos os avisos. No início da primavera de 312, transpôs os Alpes Cócios com um quarto de suas forças, exército que somava cerca de 40.000 homens. A primeira cidade fortificada em seu caminho foi Segúsio (Susa, Itália), praça fortemente guarnecida que lhe fechou as portas. Constantino ordenou às suas tropas que incendiassem os portões e escalassem as muralhas, tomando a povoação com rapidez. Proibiu o saque da praça e prosseguiu o avanço em direção ao norte da península.

Ao aproximar-se da estratégica cidade de Augusta dos Taurinos (Turim, Itália), Constantino confrontou um volumoso contingente de cavalaria pesada (clibanários) de Maxêncio. Na subsequente Batalha de Turim, as forças de Constantino cercaram a cavalaria inimiga, atacando-a pelos flancos com sua própria cavalaria e abatendo os cavaleiros adversários com maças e clavas guarnecidas de pontas de ferro. Os exércitos de Constantino conquistaram a vitória. Turim recusou asilo às tropas em fuga de Maxêncio, franqueando os portões a Constantino. Outras cidades da planície padana enviaram embaixadas congratulatórias. Constantino marchou então para Mediolano (Milão), sendo acolhido com portas abertas e aclamações entusiásticas. Descansou suas tropas na cidade até meados do verão de 312, partindo em seguida para Bríxia (Brescia).

A guarnição de Bréscia foi dispersada com facilidade, avançando Constantino célere rumo a Verona, onde se encontrava acampado um forte contingente militar partidário de Maxêncio. Rurício Pompeiano, comandante das forças veronesas e prefeito pretoriano de Maxêncio, ocupava uma posição defensiva favorável, visto que a praça era circundada em três lados pelo Ádige. Constantino destacou uma pequena força ao norte da cidade na tentativa de cruzar o rio sem ser notada. Rurício enviou uma divisão para interceptar as forças de Constantino, mas foi batido. As tropas de Constantino cercaram a praça e impuseram cerco. Rurício conseguiu escapar das linhas de cerco e regressou à frente de um exército mais numeroso para travar combate. Constantino recusou-se a suspender o assédio à cidade e destacou apenas uma fração de suas forças para conter o socorro militar. No renhido combate que se seguiu, Rurício foi morto e seu exército, aniquilado. Verona rendeu-se pouco depois, seguida por Aquileia, Mútina (Módena) e Ravena. O caminho para Roma encontrava-se aberto.

Maxêncio preparou-se para a mesma modalidade de conflito que travara com êxito contra Severo e Galério: aquartelou-se em Roma e dispôs-se a sustentar um longo cerco. Retinha o controle sobre a Guarda Pretoriana, dispunha de fartos estoques de trigo importados da África e encontrava-se resguardado em todos os quadrantes pelas muralhas aparentemente inexpugnáveis das Muralhas Aurelianas. Ordenou a demolição de todas as pontes sobre o Tibre, alegadamente por advertência divina dos oráculos, deixando desguarnecido o restante da Itália Central, cuja adesão Constantino obteve sem oposição. Constantino avançou vagarosamente pela Via Flamínia, permitindo que a inação e a fragilidade do regime de Maxêncio acentuassem as crises internas da capital. O apoio a Maxêncio continuava a degradar-se: durante corridas de bigas realizadas em 27 de outubro, a multidão hostilizou-o abertamente, aclamando que Constantino era invencível. Inseguro quanto ao êxito de um cerco prolongado, Maxêncio ordenou a montagem de uma ponte móvel de barcas sobre o Tibre, preparando-se para um confronto em campo aberto contra o rival. Em 28 de outubro de 312, sexto aniversário de sua ascensão, consultou os guardiães dos Livros Sibilinos. Os sacerdotes profetizaram que, naquele exato dia, o inimigo dos romanos pereceria. Maxêncio marchou para o norte para enfrentar Constantino em batalha.

Ponte Mílvia

As forças de Maxêncio dobravam em número as tropas de Constantino; ele desdobrou suas fileiras estendidas na planície com a retaguarda voltada para o rio. O exército de Constantino ingressou no campo de batalha exibindo símbolos desconhecidos em seus estandartes e escudos. Segundo Lactâncio, Constantino foi instruído em sonho a fazer com que o sinal celestial de Deus fosse gravado nos escudos de seus soldados, marchando em seguida para a batalha. Cumpriu o que lhe fora ordenado e marcou nos escudos a letra X, com uma linha perpendicular cruzando-a e voltada no topo, configurando o símbolo de Cristo. Trazendo este sinal (☧), suas tropas tomaram as armas. Eusébio descreve uma visão experienciada por Constantino durante a marcha ao meio-dia, na qual viu com seus próprios olhos o troféu de uma cruz luminosa nos céus, acima do sol, com a inscrição In hoc signo vinces (Com este sinal vencerás). No relato de Eusébio, Constantino teve um sonho na noite seguinte no qual Cristo apareceu com o mesmo sinal celestial e ordenou-lhe que confeccionasse um estandarte militar sob a forma do lábaro. Eusébio é impreciso quanto à data e ao local exato desses acontecimentos, mas situa-os antes do início formal da guerra contra Maxêncio. Descreve o monograma como um Qui (Χ) atravessado por um Rô (Ρ) formando ☧, correspondendo às duas primeiras letras do vocábulo grego ΧΡΙΣΤΟΣ (Christos). Um medalhão cunhado em Ticino (Pavia) em 315 exibe Constantino portando um elmo com o Chi-Rho gravado, e moedas emitidas em Síscia em 317/318 reiteram a imagem. O símbolo era de uso restrito e incomum na iconografia e propaganda imperiais antes da década de 320. Não era, contudo, inteiramente inédito, constituindo uma abreviatura do termo grego chrēston (útil, bom), tendo constado anteriormente em moedas de Ptolemeu III Evérgeta no século III a.C. Na esteira de Constantino, séculos de soberanos e guerreiros cristãos invocaram intervenções sobrenaturais ou milagrosas para justificar e descrever suas empreitadas bélicas.

Constantino desdobrou suas tropas ao longo de toda a extensão das fileiras de Maxêncio. Ordenou uma carga de sua cavalaria, que rompeu a ala montada inimiga. Em seguida, lançou a infantaria contra as linhas de infantaria de Maxêncio, empurrando muitos soldados para as águas do Tibre, onde pereceram afogados ou abatidos. O combate foi célere, desmantelando-se as linhas de Maxêncio logo no primeiro assalto. Sua guarda a cavalo e os pretorianos mantiveram inicialmente a posição, mas cederam perante a violência do ataque da cavalaria constantiniana, debandando em fuga desordenada rumo ao rio. Maxêncio cavalgou com suas tropas em fuga na tentativa de transpor a ponte de barcas (Ponte Mílvia), mas foi derrubado nas águas do Tibre pela massa de fugitivos e afogou-se sob o peso de sua armadura.

Em Roma

Constantino adentrou Roma em 29 de outubro de 312 e realizou um grandioso adventus na cidade, sendo acolhido com júbilo pela população. O cadáver de Maxêncio foi resgatado do leito do Tibre e decapitado, tendo sua cabeça sido exibida em cortejo pelas ruas. Encerradas as solenidades, a cabeça decepada foi enviada a Cartago, que cessou qualquer resistência remanescente. Diferentemente de seus predecessores, Constantino absteve-se de subir ao Capitólio para realizar os sacrifícios rituais tradicionais no Templo de Júpiter Ótimo Máximo. Contudo, compareceu à Cúria Júlia perante o Senado, comprometendo-se a restabelecer as prerrogativas ancestrais da ordem senatorial e assegurar-lhe participação ativa em sua administração; declarou outrossim que não haveria represálias contra partidários de Maxêncio. Em agradecimento, o Senado Romano outorgou-lhe o título de primazia (titulus primi nominis), assegurando que seu nome figurasse em primeiro lugar em todos os atos oficiais, e aclamou-o como o maior dos augustos (maximus Augustus). Constantino promulgou editos restituindo propriedades expropriadas sob Maxêncio, repatriando exilados políticos e libertando adversários encarcerados pelo antigo regime.

Seguiu-se uma abrangente campanha de propaganda política, expurgando a imagem de Maxêncio de todos os monumentos públicos. Foi formalmente rotulado como tirano em oposição à imagem idealizada de Constantino como o libertador. As obras de Eusébio constituem o testemunho mais expressivo dessa vertente da propaganda constantiniana. Os decretos e rescritos de Maxêncio foram invalidados, e as honrarias que ele concedera a membros da aristocracia senatorial foram anuladas. Constantino empenhou-se igualmente em apagar a marca arquitetônica de Maxêncio na paisagem monumental de Roma: todos os edifícios por ele iniciados ou concluídos foram reconsagrados a Constantino, incluindo o Templo de Rômulo e a Basílica de Maxêncio. No ponto focal da basílica, foi entronizada uma estátua colossal de Constantino empunhando o lábaro cristão com a mão direita, trazendo uma inscrição comemorativa que declarava: Por este sinal de verdadeira virtude, libertei vossa cidade do jugo da tirania.

Constantino procurou ainda superar a magnitude das realizações de Maxêncio. O Circo Máximo, por exemplo, foi ampliado de modo que sua lotação superasse em vinte e cinco vezes a capacidade do circo erigido por Maxêncio na Via Ápia. Os principais suportes militares do usurpador foram desmantelados: Constantino dissolveu formalmente a Guarda Pretoriana e a guarda a cavalo imperial (equites singulares Augusti). As estelas fúnebres dos cavaleiros imperiais foram desmanchadas e utilizadas na alvenaria de uma basílica na Via Labicana, e seu antigo quartel foi demolido para dar lugar à fundação da Arquibasílica de São João de Latrão em 9 de novembro de 312 — escassas duas semanas após a tomada da urbe. A Legio II Parthica foi transferida e removida de Albano Laziale, e os contingentes remanescentes das tropas de Maxêncio foram destacados para o serviço de guarnição na fronteira do Reno.

Guerras contra Licínio

Nos anos subsequentes, Constantino consolidou progressivamente sua hegemonia militar sobre os rivais na combalida Tetrarquia. Em 313, reuniu-se com Licínio em Mediolano (Milão) para selar a aliança mútua mediante o consórcio matrimonial de Licínio com a meia-irmã de Constantino, Constância. Durante esse encontro, os dois augustos pactuaram o chamado Édito de Milão, outorgando oficialmente ampla tolerância ao cristianismo e a todos os cultos religiosos do império. O documento beneficiava especialmente os cristãos, despenalizando sua fé e ordenando a restituição de todos os bens e propriedades confiscados durante a grande perseguição de Diocleciano. O texto repudiava métodos passados de coação religiosa e utilizava formulações deliberadamente amplas e abstratas para aludir à esfera celestial — Divindade e Suprema Divindade (summa divinitas). A conferência foi interrompida de forma abrupta pela chegada de notícias a Licínio de que seu rival Maximino havia transposto o Bósforo e invadido os territórios europeus. Licínio partiu ao seu encontro e acabou por derrotar Maximino em combate, assumindo o controle hegemônico sobre toda a metade oriental do Império Romano. As relações entre os dois augustos remanescentes degradaram-se rapidamente quando Constantino foi alvo de uma tentativa de homicídio orquestrada por um aliado que Licínio pretendia elevar à dignidade de césar; Licínio, por sua vez, ordenou a demolição das estátuas de Constantino em Emona. Em 314 ou 316, os dois imperadores enfrentaram-se militarmente na Batalha de Cíbalas, saindo Constantino vitorioso. Travaram novo choque na Batalha de Márdia em 317, celebrando em seguida um tratado de conciliação pelo qual os filhos de Constantino, Crispo e Constantino II, bem como o filho de Licínio, Licínio Jovem, foram elevados a césares. Sob esse arranjo, Constantino assumiu a administração das dioceses da Panônia e da Macedônia e fixou residência em Sírmio, de onde desfechou campanhas militares contra godos e sármatas em 322, e contra os godos em 323, batendo e abatendo em combate seu líder Rausimodo.

Em 320, Licínio teria renegado as garantias de liberdade religiosa asseguradas pelo Édito de Milão e retomado a repressão aos cristãos, em geral sem derramamento de sangue, mas recorrendo ao confisco de bens e à destituição de magistrados e oficiais de fé cristã. Conquanto a caracterização de Licínio como perseguidor empedernido suscite questionamentos na historiografia contemporânea, é certo que ele se mostrava substancialmente menos propenso a apoiar o cristianismo do que Constantino. Em virtude disso, inclinava-se a encarar a Igreja como uma força mais leal à pessoa de Constantino do que à autoridade do Estado imperial em geral, hipótese apontada pelo cronista eclesiástico Sozomeno.

Esse equilíbrio precário desembocou na grande guerra civil de 324. Os panegiristas cristãos de Constantino apresentaram o conflito como uma contenda escatológica entre o cristianismo e o paganismo: Licínio, apoiado por contingentes mercenários godos, representava a ordem pagã arcaica, enquanto Constantino e suas tropas de francos avançavam sob a proteção do lábaro. Em desvantagem numérica, mas impulsionado pelo zelo combativo, o exército de Constantino obteve a vitória na Batalha de Adrianópolis. Licínio refugiou-se além do Bósforo e proclamou Martiniano, seu magister officiorum, como augusto nominal do Ocidente; todavia, Constantino prevaleceu na batalha naval do Helesponto e desferiu o golpe definitivo na Batalha de Crisópolis, travada em 18 de setembro de 324. Licínio e Martiniano renderam-se a Constantino em Nicomédia sob a garantia solene de que suas vidas seriam poupadas: foram relegados à condição de cidadãos privados em Tessalônica e na Capadócia, respectivamente. Contudo, em 325, Constantino acusou Licínio de articular conspirações traiçoeiras, ordenando a prisão e a execução por enforcamento de ambos; o filho de Licínio (e sobrinho de Constantino) foi assassinado em 326. Dessa forma, Constantino consagrou-se como soberano único e incontestado de todo o Império Romano.

Governo posterior

Fundação de Constantinopla

Diocleciano escolhera Nicomédia, no Oriente, como sua capital imperial durante a Tetrarquia — praça situada nas cercanias de Bizâncio, geograficamente bem posicionada para guarnecer a Trácia, a Ásia e o Egito, províncias que demandavam permanente vigilância militar. Ao planejar sua nova capital, Constantino reconheceu o deslocamento do eixo econômico e demográfico do império do Ocidente para os opulentos centros urbanos do Oriente, bem como a necessidade estratégica de resguardar a fronteira danubiana contra incursões bárbaras e a Ásia contra a hostilidade do Império Sassânida, além de monitorar as rotas marítimas mercantis entre o mar Negro e o Mediterrâneo. A queda de Licínio significara o desmantelamento de um centro rival de poder político pagão e helenófono no Oriente em contraposição a uma Roma cristianizada e latinizada; propunha-se, por conseguinte, que uma nova metrópole oriental consolidasse a integração do Oriente ao Império Romano como um polo de irradiação cultural, prosperidade econômica e preservação administrativa. Entre as localidades aventadas para essa capital alternativa, Constantino cogitara previamente Sérdica (atual Sófia), chegando a declarar: Sérdica é a minha Roma. Sírmio e Tessalônica também foram consideradas. Por fim, Constantino decidiu refundar a cidade grega de Bizâncio, que desfrutava da vantagem de ter sido amplamente reconstruída sob cânones urbanísticos romanos no século anterior por Septímio Severo e Caracala, que já haviam reconhecido sua relevância geoestratégica. A urbe foi formalmente fundada em 324, consagrada solenemente em 11 de maio de 330 e rebatizada como Constantinopolis (Cidade de Constantino, ou Constantinopla). Moedas comemorativas especiais foram emitidas em 330 para solenizar a fundação. A nova cidade foi posteriormente colocada sob a proteção de relíquias da Verdadeira Cruz, da Vara de Moisés e de outras relíquias sagradas, conquanto um camafeu preservado no Museu Hermitage retrate Constantino coroado pela tique (divindade tutelar) da nova metrópole. As efígies dos deuses antigos foram gradualmente substituídas ou adaptadas no âmbito do simbolismo cristão. Gerações posteriores consolidaram a narrativa mítica de que uma visão divina conduzira Constantino ao local, e que um anjo invisível aos olhos alheios o guiara durante o traçado ritual das novas muralhas. A nova corte imperial passou a ser amiúde comparada à antiga Roma sob o título de Nova Roma Constantinopolitana (Nova Roma de Constantinopla).

Religião e política religiosa

Constantino foi o primeiro imperador a cessar a perseguição aos cristãos e a legalizar o cristianismo, a par de todas as outras religiões e cultos do Império Romano. Em fevereiro de 313, reuniu-se com Licínio em Milão e elaborou o Édito de Milão, determinando que os cristãos pudessem professar sua fé sem coerção ou impedimento. Essa deliberação extinguiu as penas aplicadas àqueles que professavam o cristianismo — sob as quais numerosos fiéis haviam sido martirizados anteriormente — e ordenou a restituição do patrimônio eclesiástico confiscado. O édito resguardava da perseguição todas as confissões religiosas, e não apenas o cristianismo, facultando a cada súdito venerar a divindade de sua preferência. Disposição de teor semelhante havia sido outorgada em 311 por Galério, imperador sênior da Tetrarquia, concedendo aos cristãos a faculdade de praticar seus ritos sem, contudo, ordenar a restituição de seus bens. O Édito de Milão incluía cláusulas explícitas ordenando a devolução de todas as igrejas sequestradas e garantias adicionais às comunidades antes fustigadas. Alguns estudiosos consideram que Helena abraçou o cristianismo na idade adulta e, segundo Eusébio, foi convertida por Constantino, ao passo que outros historiadores debatem se Constantino herdou o cristianismo de sua mãe Helena ainda jovem ou se o adotou gradualmente ao longo da vida.

Constantino possivelmente conservou o título de pontifex maximus, que os imperadores ostentavam como supremos sacerdotes da antiga religião romana, até que Graciano renunciou formalmente à dignidade. Conforme autores cristãos, Constantino contava mais de quarenta anos quando se declarou abertamente cristão, enfatizando que atribuía seus triunfos militares e políticos unicamente à proteção do Deus cristão. Não obstante tais profissões de fé, adiou o sacramento do batismo até o leito de morte, na convicção de que o rito purificador lavaria todos os pecados e culpas contraídos no exercício de suas atribuições governativas imperiais. Constantino subvencionou a Igreja financeiramente, ergueu suntuosas basílicas, concedeu imunidades fiscais e privilégios civis ao clero (como isenção de tributos munais), promoveu cristãos a altos postos administrativos e restituiu os bens espoliados durante o longo período de perseguições. Entre suas edificações mais célebres figuram a Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém e a Antiga Basílica de São Pedro em Roma. Na ereção desta última, Constantino envidou vultosos esforços de engenharia para situar a abside diretamente sobre o túmulo do apóstolo São Pedro, superando as dificuldades topográficas da encosta do monte Vaticano, demandando a conclusão das obras mais de três décadas desde a ordem inicial de construção.

Constantino não patrocinou exclusivamente o culto cristão. O Arco de Constantino, erguido pelo Senado em 315 para comemorar o triunfo na Batalha da Ponte Mílvia, foi ornamentado com relevos da deusa Vitória, tendo sido celebrados sacrifícios rituais a divindades pagãs por ocasião de sua dedicação solene, incluindo Apolo, Diana e Hércules. O monumento é inteiramente desprovido de símbolos cristãos explícitos, o que reflete igualmente a influência da Cúria senatorial da época, baluarte das tradições pagãs romanas.

Em 321, estabeleceu por lei que o venerável dia do Sol (domingo) deveria constituir dia de repouso obrigatório para todos os cidadãos do império. Em 323, promulgou decreto interditando a participação forçada de cristãos em sacrifícios estatais pagãos. Após o desaparecimento das divindades pagãs em suas moedas, símbolos cristãos começaram a figurar como atributos régios de Constantino — como o lábaro ou o monograma de Cristo (Chi-Rho) empunhado em suas mãos, além de gravações na cunhagem. Seu principado estabeleceu o precedente histórico de intervenção direta do imperador nos grandes concílios da Igreja, como se verificou na querela contra o arianismo. Constantino repelia as tensões e perturbações civis decorrentes de cismas teológicos, preferindo assegurar a concórdia e a ortodoxia dogmática. Sua autoridade sobre as assembleias eclesiásticas visava impor a disciplina institucional, reprimir heresias e salvaguardar a unidade eclesiástica, cabendo aos prelados definir a doutrina, o dogma e os ritos litúrgicos.

Ao tornar-se soberano único em 324, Constantino expediu cartas circulares exortando todos os seus súditos a abraçarem a fé cristã.

Entre 313 e 316, prelados do norte da África confrontaram-se com bispos ordenados por Donato em oposição a Ceciliano. Sem que as facções alcançassem consenso, os donatistas apelaram a Constantino para atuar como árbitro no conflito. Três sínodos regionais e um inquérito judicial foram realizados antes de Constantino proferir julgamento condenando Donato e o movimento do donatismo. Em 317, promulgou edito ordenando o confisco dos templos donatistas e o exílio de seus sacerdotes. De maior relevância histórica, convocou em 325 o Primeiro Concílio de Niceia, célebre pelo enfrentamento da heresia ariana e pela formulação do Credo Niceno. Fez cumprir a determinação conciliar que vedava a celebração da Páscoa cristã em coincidência com o Pessach judaico, consumando o distanciamento formal entre a Igreja cristã e as tradições litúrgicas judaicas. A partir de então, o calendário juliano de base solar passou a ter primazia canônica sobre o calendário hebraico lunissolar entre as dioceses do Império Romano.

Constantino promulgou também nova legislação concernente aos judeus; parte dessas medidas era desfavorável às comunidades judaicas, conquanto não se mostrassem mais severas do que as disposições de seus antecessores. Interditou a realização de proselitismo judaico e proibiu agressões contra judeus que houvessem abraçado o cristianismo. Os judeus foram igualmente proibidos de adquirir escravos cristãos ou de submeter escravos de sua propriedade à circuncisão. Por outro lado, aos líderes e clérigos religiosos judaicos foram concedidas as mesmas imunidades e isenções civis atribuídas ao clero cristão.

Reformas administrativas

A partir de meados do século III, os imperadores passaram a privilegiar integrantes da ordem equestre (equites) em detrimento dos senadores, que detinham historicamente o monopólio das mais altas magistraturas do Estado. Os senadores foram afastados do comando de legiões e da maioria dos governos provinciais, sob a alegação de que lhes faltava a formação militar especializada exigida por uma conjuntura de defesa premente; tais funções foram confiadas a cavaleiros por Diocleciano e seus colegas de governo, consolidando uma tendência aplicada gradativamente por seus predecessores. Os soberanos, todavia, necessitavam do apoio e dos recursos dos grandes proprietários senatoriais para sustentar a coesão social mediante redes clientelares e laços de influência em todos os níveis administrativos. O afastamento da nobreza senatorial colocava em risco esse equilíbrio.

Em 326, Constantino reverteu essa política pró-equestre, elevando inúmeros cargos administrativos à categoria senatorial e reabrindo tais postos à aristocracia tradicional; paralelamente, promoveu titulares de cargos equestres existentes à dignidade de senadores, o que desvalorizou a ordem equestre enquanto estrato burocrático autônomo. O título de perfectissimus passou a ser conferido unicamente a funcionários de escalões médios ou inferiores no final do século IV.

Pela nova organização constantiniana, ascendia-se à ordem senatorial mediante eleição para a pretura ou pelo exercício de funções públicas com prerrogativa senatorial vinculada. A partir de então, o exercício do poder real e o prestígio nobiliárquico fundiram-se em uma hierarquia unificada. Com essa medida, Constantino granjeou a simpatia da antiga aristocracia, tendo o Senado recuperado a prerrogativa de eleger pretores e questores, em substituição à prática ordinária de nomeação direta de magistrados pelo imperador (adlectio). Uma inscrição comemorativa erguida em honra do prefeito urbano Ceônio Rúfio Albino proclama que Constantino havia restituído ao Senado a auctoritas que este perdera desde a época de César.

O plenário do Senado permaneceu destituído de poder político deliberativo de vulto; ainda assim, os senadores, que haviam sido marginalizados dos cargos de comando ao longo da crise do século III, voltaram a disputar postos de relevo ao lado dos quadros burocráticos emergentes. Alguns historiadores modernos interpretam essas reformas institucionais como uma tentativa de Constantino de reintegrar a nobreza senatorial à elite governativa para mitigar o risco de alienar senadores de tradição pagã perante um imperador cristão; contudo, essa leitura permanece conjetural, visto inexistirem estimativas quantitativas precisas sobre o ritmo de conversão da velha nobreza romana ao cristianismo antes da ascensão de Constantino, sugerindo alguns pesquisadores que as conversões na aristocracia eram mais numerosas do que se supunha anteriormente.

As reformas promovidas por Constantino cingiram-se à administração civil. Os generais e chefes militares haviam sido recrutados nos escalões do exército desde a Crise do Terceiro Século e permaneceram apartados do Senado, sendo incluídos na ordem senatorial apenas durante os reinados dos filhos de Constantino.

Reformas monetárias

No século III, a emissão desmedida de moeda fiduciária para custear as despesas do Estado desencadeara uma inflação galopante, tendo Diocleciano tentado em vão restabelecer um sistema crível de cunhagem de moedas de prata e de bilhão de prata e bronze (sendo o bilhão uma liga contendo metais preciosos misturados a metais vis em proporção majoritária de metal comum). A moeda divisionária de prata circulava com sobrepreço artificial em relação ao seu teor intrínseco de metal nobre, depreciando-se no comércio cotidiano. Constantino extinguiu a cunhagem do argenteus de prata pura criado por Diocleciano pouco depois de 305, ao passo que as peças de bilhão continuaram a ser empregadas até a década de 360. A partir do início do século IV, Constantino abandonou as tentativas de reabilitar a circulação de moedas de prata de bom teor, concentrando-se na emissão massiva de uma nova moeda de ouro, o sólido (solidus), cunhado à razão de 72 peças por cada libra de ouro. Moedas divisionárias de prata de teor substancialmente aviltado continuaram a ser emitidas no final de seu reinado e após sua morte, em um processo ininterrupto de reclassificação tarifária, até que as emissões de bilhão cessaram em 367, sendo as peças de prata substituídas por diversas frações de bronze, destacando-se o centenionalis.

Essas moedas de bronze continuaram a sofrer depreciações, assegurando a viabilidade de sustentar uma circulação fiduciária atrelada ao padrão-ouro. O autor anônimo do tratado De rebus bellicis sustentava que tal política monetária aprofundara as clivagens sociais do império: as classes abastadas beneficiavam-se da estabilidade e do poder de compra do sólido de ouro, enquanto os estratos empobrecidos eram forçados a lidar com moedas de bronze em constante desvalorização. Imperadores posteriores, como Juliano, o Apóstata, empenharam-se em reintroduzir emissões de bronze com teor fiduciário mais confiável.

As diretrizes monetárias de Constantino articularam-se estritamente com sua política religiosa: a expansão das cunhagens esteve diretamente vinculada ao confisco de todas as estátuas e ornamentos de ouro, prata e bronze dos templos pagãos entre 331 e 336, declarados propriedade do fisco imperial. Dois comissários imperiais em cada província receberam a incumbência de recolher os tesouros e estátuas sagradas para fundição e transformação imediata em moedas correntes, com exceção de um conjunto de peças escultóricas de bronze transportadas para servir de adorno aos espaços públicos de Constantinopla.

Execuções de Crispo e Fausta

Constantino ordenou a prisão de seu primogênito Crispo e sua execução mediante veneno frio em Pola (Pula, Croácia) em algum momento entre 15 de maio e 17 de junho de 326. Em julho do mesmo ano, mandou executar sua esposa, a imperatriz Fausta (madrasta de Crispo), asfixiada em um banho excessivamente aquecido. Seus nomes foram apagados de monumentos e inscrições epigráficas em cumprimento a uma condenação póstuma de sua memória (damnatio memoriae), e alusões às suas pessoas foram expurgadas dos registros literários. Eusébio, por exemplo, suprimiu todos os encômios a Crispo nas edições subsequentes de sua História Eclesiástica, e sua biografia Vita Constantini omite qualquer menção a Fausta ou a Crispo. Escassas fontes antigas abordam as razões que motivaram os expurgos, e os relatos preservados são de redação tardia e de fidedignidade questionável. À época das execuções, circulavam rumores de que Fausta mantinha um relacionamento incestuoso com o enteado Crispo ou que teria forjado tais calúnias contra ele. Emergiu daí uma lenda popular estruturada sobre o modelo mitológico de Hipólito e Fedra, insinuando que Constantino os condenara à morte por ultraje à moral familiar; a apócrifa e tardia narrativa da Paixão de Artêmio estabelece explicitamente essa correlação. Essa interpretação apoia-se em indícios frágeis: apenas testemunhos serôdios insinuam qualquer ligação entre Fausta e Crispo, inexistindo provas documentais que vinculem as leis morais de 326 promulgadas por Constantino a uma suposta transgressão de Crispo.

Embora Constantino tenha nomeado seus herdeiros diretos como césares — seguindo o precedente inaugurado por Diocleciano —, conferiu a essa magistratura um caráter estritamente hereditário e dinástico, inteiramente alheio à lógica do mérito da Tetrarquia: os césares de Constantino eram investidos na expectativa da sucessão biológica ao trono e subordinavam-se integralmente à autoridade suprema de seu augusto enquanto este vivesse. O historiador Adrian Goldsworthy conjectura que a execução de Crispo pode ter derivado da determinação de Constantino em conservar controle férreo sobre os postulantes à sucessão, configurando essa premissa — somada à ambição de Fausta em garantir a herança imperial aos próprios filhos em detrimento do enteado — motivo suficiente para a liquidação de Crispo; por sua vez, a subsequente execução de Fausta teria servido de advertência aos jovens príncipes de que o imperador não hesitaria em eliminar seus próprios parentes quando julgasse necessário.

Campanhas finais

Constantino considerava Constantinopla sua capital e residência permanente, tendo nela habitado durante grande parte de seus últimos anos. Em 328, foi concluída a construção da Ponte de Constantino sobre o Danúbio em Sucídava (atual Celei, na Romênia), com a pretensão de reconquistar a Dácia romana, província que havia sido abandonada sob o imperador Aureliano. No final do inverno de 332, Constantino desfechou uma ofensiva militar em aliança com os sármatas contra os godos. As neves rigorosas e a escassez alimentar impuseram pesadas perdas aos godos antes que estes prestassem submissão a Roma. Em 334, após plebeus e servos sármatas terem derrubado suas lideranças aristocráticas, Constantino liderou uma expedição punitiva contra a tribo. Saiu vitorioso no conflito e consolidou o controle sobre a área, como atestam vestígios de acampamentos e defesas erguidas na região. Constantino assentou milhares de exilados sármatas como colonos agrícolas nas comarcas do Ilírico e da península Itálica, incorporando os restantes às fileiras legionárias. Reconquistou o sul da Dácia, fixando a nova linha de fronteira ao longo do fosso fortificado e baluarte de terra denominado Brazda lui Novac, guarnecido por novos castros militares. Em razão dessas conquistas, assumiu o título triunfal de Dacicus maximus em 336.

Nos derradeiros anos de sua vida, Constantino planejou uma grande campanha contra o Império Sassânida da Pérsia. Numa epístola enviada ao xá persa Sapor II, afirmara seu patrocínio sobre os cristãos residentes na Pérsia e instara Sapor a dispensar-lhes tratamento benévolo. O documento não traz datação precisa. Em retaliação a incursões fronteiriças, Constantino enviou seu filho Constâncio para resguardar a fronteira oriental em 335. Em 336, o príncipe persa Narses invadiu a Armênia (reino cristianizado desde 301) e instalou um monarca cliente de Ctesifonte no trono armênio. Constantino resolveu então declarar guerra aberta contra a Pérsia. Concebeu a expedição nos moldes de uma cruzada cristã, ordenando que bispos e clérigos acompanhassem os exércitos e mandando confeccionar uma tenda militar com a forma de uma igreja para acompanhá-lo em todos os deslocamentos. Tinha a intenção de ser batizado nas águas do rio Jordão antes de ingressar em território persa. Embaixadores persas compareceram a Constantinopla no inverno de 336–337 para suplicar termos de paz, mas Constantino rejeitou as propostas. A expedição militar acabou por ser cancelada quando o imperador adoeceu gravemente na primavera de 337.

Enfermidade e morte

Perante o agravamento de seu estado de saúde, Constantino pressentiu a proximidade da morte. No interior da Igreja dos Santos Apóstolos, que mandara erigir em Constantinopla, havia preparado secretamente seu próprio túmulo monumental. O desfecho precipitou-se antes do previsto. Pouco depois das festividades da Páscoa de 337, Constantino adoeceu gravemente. Partiu de Constantinopla rumo às termas de águas quentes situadas perto de Helenópolis (Altınova), cidade dedicada à memória de sua mãe no litoral sul do golfo de Nicomédia (atual Golfo de İzmit). Chegando a Helenópolis, orou e dirigiu súplicas a Deus numa basílica que edificara em honra do mártir Luciano de Antioquia. Sentindo a aproximação de suas últimas horas, expressou a vontade de receber a purificação dos pecados cometidos através do batismo. Transferiu-se para os arredores de Nicomédia e convocou os bispos locais. Revelou-lhes sua aspiração primordial de receber o batismo nas margens do rio Jordão, onde o próprio Cristo fora batizado, mas louvou a Deus declarando conformar-se em receber o sacramento ali mesmo. Expressou então o firme propósito de viver o restante de seus dias em união com a Igreja e o povo de Deus. Eusébio relata que os prelados oficiaram os ritos sagrados em conformidade com o costume. Constantino escolheu o bispo ariano Eusébio de Nicomédia, titular da sé onde jazia enfermo, para ministrar-lhe o sacramento. Historiadores apontam que Constantino postergou o batismo para ser perdoado da maior soma possível de pecados e transgressões de sua trajetória política. Constantino faleceu pouco depois numa vila suburbana chamada Áquiron, no último dia do ciclo de cinquenta dias de Pentecostes, em 22 de maio de 337.

Embora no relato de Eusébio a morte de Constantino figure após a conclusão dos preparativos da expedição persa, a maioria das outras fontes primárias assinala que seu falecimento sucedeu em pleno curso da mobilização militar. O imperador Juliano, o Apóstata (sobrinho de Constantino), escrevendo em meados da década de 350, observa que os sassânidas escaparam ao castigo bélico unicamente porque Constantino morrera no meio de seus preparativos de guerra. Relatos convergentes constam na obra anônima Origo Constantini, redigida enquanto Constantino ainda reinava, que situa seu falecimento em Nicomédia; na obra Historiae abbreviatae de Sexto Aurélio Vítor, de 361, que afirma que Constantino morreu numa propriedade rural perto de Nicomédia chamada Áquiron quando marchava contra os persas; e no Breviarium de Eutrópio, compêndio histórico preparado em 369 para o imperador Valente, que registra sua morte numa vila estatal sem nome em Nicomédia. A partir dessas discrepâncias, especialistas concluem que a Vida de Constantino de Eusébio foi alterada para resguardar a imagem do soberano de versões tidas como menos favoráveis à sua memória.

Após o falecimento, seu esquife foi trasladado para Constantinopla e sepultado na Igreja dos Santos Apóstolos, depositado em um sarcófago de pórfiro imperial descrito no século X pelo imperador Constantino VII Porfirogênito no tratado De Ceremoniis. Seus restos mortais sobreviveram ao saque da cidade durante a Quarta Cruzada em 1204, vindo a ser destruídos em momento posterior. Um fragmento de sarcófago atribuído pela tradição a Constantino encontra-se exposto nos Museus Arqueológicos de Istambul.

Constantino foi sucedido por seus três filhos nascidos de Fausta: Constantino II, Constâncio II e Constante. Seus filhos, juntamente com seu sobrinho Dalmácio, já haviam recebido uma partilha do império cada um para governar com a dignidade de césar; Constantino talvez tencionasse restaurar uma estrutura colegial similar à Tetrarquia diocleciana. No rescaldo de sua morte, diversos parentes foram assassinados por partidários de Constâncio, nomeadamente os sobrinhos de Constantino, Dalmácio (que detinha o título de césar) e Anibaliano, presumivelmente para eliminar concorrentes diretos a uma linha sucessória já intrincada. Constantino deixou também duas filhas, Constantina e Helena, esta última consorte do imperador Juliano.

Religião

Fólis de Constantino, cunhada em Lugduno, na Gália, por volta de 310, com o Deus Sol Invicto
Fólis de Constantino, cunhada em Lugduno, na Gália, por volta de 310, com o Deus Sol Invicto
Cristograma de Constantino
Cristograma de Constantino
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O facto de Constantino ser um imperador de legitimidade duvidosa foi algo que sempre influiu nas suas preocupações religiosas e ideológicas: enquanto esteve diretamente ligado a Maximiano, ele apresentou-se como o protegido de Hércules, deus que havia sido apresentado como padroeiro de Maximiano na primeira tetrarquia. Ao romper com o seu sogro e após o ter eliminado, Constantino passou a colocar-se sob a proteção da divindade padroeira dos imperadores-soldados do século anterior, Deus Sol Invicto, ao mesmo tempo que fez circular uma ficção genealógica (um panegírico da época. Para disfarçar a óbvia invenção, dizia, dirigindo-se retoricamente ao próprio Constantino, que se tratava dum facto "ignorado pela multidão, mas perfeitamente conhecido pelos que te amam") pela qual ele seria o descendente do imperador Cláudio II — ou Cláudio Gótico — conhecido pelas suas grandes vitórias militares, por haver restabelecido a disciplina no exército romano, e por ter estimulado o culto ao Sol.

Constantino acabou, no entanto, por entrar na História como primeiro imperador romano a professar o cristianismo, na sequência da sua vitória sobre Magêncio na Batalha da Ponte Mílvia, em 28 de outubro de 312, perto de Roma, que ele mais tarde atribuiu ao Deus cristão. Segundo a tradição, na noite anterior à batalha sonhou com uma cruz, e nela estava escrito em latim:

“

In hoc signo vinces

”

De manhã, um pouco antes da batalha, mandou que pintassem uma cruz nos escudos dos soldados e conseguiu uma vitória esmagadora sobre o inimigo. Esta narrativa tradicional não é hoje considerada um facto histórico, tratando-se antes da fusão de duas narrativas de factos diversos encontrados na biografia de Constantino pelo bispo Eusébio de Cesareia.

No entanto, é certo que Constantino era atraído, enquanto homem de Estado, pela religiosidade e pelas práticas piedosas — ainda que se tratasse da piedade ritual do paganismo: o senado, ao erguer em honra a Constantino o seu arco do triunfo, o Arco de Constantino, fez inscrever sobre este que sua vitória se devia à "inspiração da divindade" (instinctu divinitatis mentis), o que certamente ia ao encontro das ideias do próprio imperador. Até um período muito tardio do seu reinado, no entanto, Constantino não abandonou claramente a sua adoração com relação ao deus imperial Sol, que manteve como símbolo principal nas suas moedas até 315.

Só após 317 é que ele passou a adotar clara e principalmente lemas e símbolos cristãos, como o "chi-ró", emblema que combinava as duas primeiras letras gregas do nome de Cristo ("X" e "P" sobrepostos). No entanto, já quando da sua entrada solene em Roma em 312, Constantino se recusou a subir ao Capitólio para oferecer culto a Júpiter, atitude que repetiria nas suas duas outras visitas solenes à antiga capital para a comemoração dos jubileus do seu reinado, em 315 e 326.

A sua adoção do cristianismo pode também ser resultado de influência familiar. Helena, sua mãe, com grande probabilidade, havia nascido cristã e demonstrou grande piedade no fim da sua vida, quando realizou uma peregrinação à Terra Santa, localizou em Jerusalém uma cruz que foi tida como a Vera Cruz e ordenou a construção da Igreja do Santo Sepulcro, substituindo o templo a Afrodite que havia sido instalado no local — tido como o do sepultamento de Cristo — pelo imperador Adriano.

Mas apesar do seu batismo, há dúvidas se realmente ele se tornou cristão. A Enciclopédia Católica afirma: "Constantino favoreceu de modo igual ambas as religiões. Como sumo pontífice ele velou pela adoração pagã e protegeu seus direitos". E a Enciclopédia Hídria observa: "Constantino nunca se tornou cristão". No dia anterior ao da sua morte, Constantino fizera um sacrifício a Zeus, e até o último dia usou o título pagão de pontífice máximo (pontifex maximus). E, de facto, Constantino, até ao dia da sua morte, não havendo sido batizado, não participou de qualquer ato litúrgico, como a missa ou a eucaristia. No entanto, era uma prática comum na época retardar o batismo, que era suposto oferecer a absolvição a todos os pecados anteriores — e Constantino, por força do seu ofício de imperador, pode ter percebido que as suas oportunidades de pecar eram grandes e não desejou "desperdiçar" a eficácia absolutória do batismo antes de haver chegado ao fim da vida.

Qualquer que tenha sido a fé individual de Constantino, o facto é que ele educou os seus filhos no cristianismo, associou a sua dinastia a esta religião, e deu-lhe uma presença institucional no Estado romano (a partir de Constantino, o tribunal do bispo local, a episcopalis audientia, podia ser escolhida pelas partes de um processo como tribunal arbitral em lugar do tribunal da cidade). E quanto às suas profissões de fé pública, num édito do início de seu reinado, em que garantia liberdade religiosa, ele tratava os pagãos com desdém, declarando que lhes era concedido celebrar "os ritos de uma velha superstição".

Esta clara associação da casa imperial ao cristianismo criou uma situação equívoca, já que o cristianismo se tornou a religião "pessoal" dos imperadores, que, no entanto, ainda deveriam regular o exercício do paganismo — o que, para um cristão, significava transigir com a idolatria. O paganismo retinha ainda grande força política — especialmente entre as elites educadas do Ocidente do império — situação que só seria resolvida por um imperador posterior, Graciano, que renunciaria ao cargo de pontífice máximo em 379 — sendo assassinado quatro anos depois por um usurpador, Magno Máximo. Somente após a eliminação de Máximo e de outro usurpador pagão, Flávio Eugénio, por Teodósio I é que o cristianismo tornar-se-ia a única religião legal (395).

O imperador romano Constantino participou em grande parte na inclusão na igreja cristã, mas, não na questão dos dogmas, pois, isso cabia aos bispos e Constantino não tinha formação teológica para tal. Um Édito dos mais conhecidos foi o Édito de Constantino, promulgado em 321, que determinou oficialmente o domingo como dia de repouso, com exceção dos lavradores — medida tomada por Constantino. Na verdade Constantino utilizou-se da sua prerrogativa de, como Pontífice máximo, de fixar o calendário das festas religiosas, dos dias fastos e nefastos (o trabalho sendo proibido durante estes últimos).

Reformas religiosas, militares e administrativas

Constantino: mosaico em Santa Sofia
Constantino: mosaico em Santa Sofia
Estátua de Constantino em Iorque, onde foi aclamado augusto
Estátua de Constantino em Iorque, onde foi aclamado augusto
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Constantino legalizou e apoiou fortemente a cristandade por volta do tempo em que se tornou imperador, com o Édito de Milão, mas também não tornou o paganismo ilegal ou fez do cristianismo a religião estatal única. Na sua posição de pontífice máximo — cargo tradicionalmente ocupado por todos os imperadores romanos, e que tinha a ver com a regulação de toda e qualquer prática religiosa no império — estabeleceu as condições do seu exercício público e interferiu na organização da hierarquia quando convocado, seguindo uma prática, no que diz respeito aos cristãos, que já havia sido inaugurada por um imperador pagão, Aureliano, que fora chamado a arbitrar uma querela entre o bispado de Antioquia e o bispado de Roma, que excomungara Paulo de Samósata, bispo de Antioquia, por heresia. O imperador reafirmara o que já era do direito circunscricional da Igreja Romana — ou seja, que as igrejas cristãs locais, no que diz respeito a sua organização administrativa — inclusive quanto a eleição dos bispos — deveriam reportar-se à igreja de Roma, a capital.

A sua vitória em 312 sobre Magêncio resultou na ascensão ao título de augusto ocidental, ou soberano da totalidade da metade ocidental do império, reconhecida pelo pagão Licínio, único augusto do Oriente após a eliminação de Maximino Daia. A vitória de Constantino teve uma consequência militar imediata: Constantino aboliu definitivamente a guarda pretoriana, que havia sustentado Magêncio e, com ela, os interesses políticos da aristocracia italiana, substituindo-a por um corpo de tropas de elite ligadas à pessoa do imperador, as escolas palatinas, que, a partir daí, seriam o núcleo do sistema militar romano, enquanto os velhos corpos de tropa territoriais eram negligenciados. As escolas eram principalmente regimentos de cavalaria, que serviam como uma força-tarefa ligada à pessoa do imperador, e seu principal objetivo era garantir uma capacidade de ação imediata em caso de guerra civil ou externa; quanto às forças de defesa territorial, os limítanes, estas acabaram por se reduzir a uma mera força policial de fronteira, entrando em declínio imediato na sua capacidade combativa. O objetivo destas reformas militares era principalmente político, colocando a quase totalidade das forças militares móveis à disposição imediata do imperador — com a exceção de certas unidades territoriais que eram equiparadas às forças móveis e chamadas pseudocomitatenses — concentradas em áreas urbanas onde pudessem ser mantidas abastecidas pelos fornecimentos que eram agora a maior parte do soldo militar (os pagamentos em dinheiro, tornando-se recompensas esporádicas pagas aquando da ascensão ou dos jubileus de ascensão do imperador ao trono).

Quando Licínio expulsou os funcionários cristãos da sua corte, Constantino encontrou um pretexto para enfrentar o seu colega e, tendo negada permissão para entrar no Império do Oriente durante uma campanha contra os sármatas, fez disto a razão para derrotar e eliminar Licínio em 324, tornando-se imperador único.

Diante da ameaça da heresia ariana, que ameaçava as bases da Doutrina Cristã, Constantino, convocou o Primeiro Concílio de Niceia, um grande centro urbano da parte oriental do império, em 325, um ano depois da queda de Licínio. Duas questões principais foram discutidas em Niceia (atual İznik): a questão da Heresia Ariana que dizia que Cristo não era divino, mas o mais perfeito das criaturas, e também a data da Páscoa. É sabido que o imperador não tinha especial preocupação com discussões filosófico-doutrinárias, assunto que delegava aos "acadêmicos", nem fazia questão em ser a autoridade suprema da Igreja, pois reconhecia a autoridade do Bispo de Roma. "O que encontramos aqui em Constantino ainda não é cesaripapismo bizantino, isto é, tutela absoluta da Igreja por parte do imperador. Bem mais, a forma do concílio imperial era tão nova quanto era novo o fato de um imperador amigo dos cristãos ser soberano do Império".

Constantino só foi batizado e cristianizado no final da vida. Ironicamente, Constantino poderá ter favorecido o lado perdedor da questão ariana, uma vez que ele foi batizado por um bispo ariano, Eusébio de Nicomédia (que não deve ser confundido com o biógrafo do imperador, Eusébio de Cesareia). A inclinação que Constantino e seu filho e sucessor na condição de augusto único, Constâncio II, demonstraram pelo arianismo, é bastante explicável, na medida em que ambos tentaram apresentar a figura do imperador como um análogo do Cristo ariano: uma emanação divina, reflexo terreno do Verbo. A tempestuosa relação de Constantino com a Igreja da época dá conta dos limites da sua atuação no estabelecimento da Ortodoxia: pouco antes de sua morte, em 335, ele mandou exilar, na capital imperial de Augusta dos Tréveros (Tréveris), o patriarca de Alexandria Atanásio, campeão da ortodoxia, por suas violentas atitudes antiarianas, e apesar do facto de que Atanásio continuou a ser perseguido pelos sucessores de Constantino, o abertamente ariano Constâncio II e o pagão Juliano, o Apóstata, foi a sua visão teológica que acabou por prevalecer.

Ao mesmo tempo que velava pela unidade religiosa do império, Constantino quis resolver o problema da divisão da elite dirigente numa aristocracia senatorial com acesso exclusivo às "dignidades" (as velhas magistraturas republicanas, sem poderes ou responsabilidades, e transformadas numa mera hierarquia de status) e numa hierarquia burocrática de funcionários imperiais com funções administrativas efetivas e pertencentes à ordem equestre: após 326, os altos funcionários passam à pertencer à ordem senatorial (os clarissimi) e o número de senadores passa de 600 a 2 mil, com os requisitos de entrada elevados (em Roma, os ex-questores deixam de ser senadores, e a entrada no senado passa a depender da pretura; na nova capital de Constantinopla, o acesso ao senado seria garantido aos ex-titulares do posto de tribuno da plebe, velha magistratura ressuscitada). Com a entrada do alto pessoal administrativo na ordem senatorial, quaisquer pretensões de independência política da velha aristocracia ficaram eliminadas; a escolha de todos os imperadores subsequentes seria feita exclusivamente na família do imperador ou através do exército. Em contrapartida, no entanto, Constantino parece haver cedido aos senadores no final do seu reinado o direito de elegerem, eles mesmos, questores e pretores e assim determinarem que pessoas queriam fazer ingressar na sua ordem, abandonando a prática da nomeação imperial de novos senadores, a adlectio. O senado, assim, se continuou sem o poder de fazer uma política própria, passou a ter o poder de estabelecer um "cadastro de reserva" da administração imperial. Por outro lado, paralelamente à carreira senatorial "padrão", a qual se chegava pela eleição às magistraturas, forma-se uma carreira alternativa, pela qual indivíduos não oriundos da aristocracia tradicional se tornam automaticamente senadores ao serem nomeados pelo imperador para cargos de hierarquia senatorial. Por outras palavras: o título de senador passou a significar uma posição na hierarquia administrativa, e não uma função pública (excetuando-se, aí, o governo local de Roma). O que aconteceu com os senadores romanos foi apenas o exemplo mais notável do que aconteceu em todo o império com sua cristianização: as identidades culturais e políticas locais deixaram de contar diante da hierarquia burocrática central.

Fundação de Constantinopla

Para resolver definitivamente o problema logístico da distância entre a capital e as principais frentes militares da época, sem recorrer ao expediente de uma residência imperial "interina", Constantino reconstruiu a antiga cidade grega de Bizâncio, que dedicou em 11 de maio de 330 chamando-a de Nova Roma, dotando-a de um senado e instituições cívicas (catorze regiões, um fórum, distribuições de trigo, um prefeito urbano) semelhantes aos da antiga Roma. Tratava-se, no entanto, de uma cidade puramente cristã, dominada pela Igreja dos Santos Apóstolos, junto à qual se encontrava o mausoléu onde Constantino seria sepultado. Os templos pagãos de Bizâncio foram nela preservados, mas neles foram proibidos os sacrifícios e o culto das imagens dos deuses. Após a morte de Constantino, Bizâncio foi renomeada Constantinopla, tendo-se gradualmente tornado a capital permanente do império. A fundação de Constantinopla foi complementada pelo tratado (foedus) realizado entre Constantino e seus descendentes com os godos, que, a partir de 332, passaram a defender a fronteira do Danúbio e fornecer homens ao exército romano, em troca de abastecimentos. A mudança da capital imperial enfraqueceu a influência do papado de Roma e fortaleceu a influência do bispo de Constantinopla sobre o Oriente, um dos eventos notáveis que provocariam futuramente o Grande Cisma do Oriente.

Sucessão

A limes danubiana e oriental no tempo de Constantino, com os territórios conquistados no curso das campanhas germano-sarmáticas (de 306 a 337). O mapa representa também o Império Romano pouco depois da morte de Constantino (337), com os territórios…
A limes danubiana e oriental no tempo de Constantino, com os territórios conquistados no curso das campanhas germano-sarmáticas (de 306 a 337). O mapa representa também o Império Romano pouco depois da morte de Constantino (337), com os territórios…

Um ano depois do Primeiro Concílio de Niceia, em 326, portanto, durante uma viagem solene a Roma para a comemoração dos seus vinte anos de reinado, Constantino mandou matar o seu próprio filho e sucessor designado Crispo, um general competente que provavelmente foi suspeito de intrigar para derrubar o pai. Pouco depois, sufocaria a sua segunda mulher Fausta num banho sobreaquecido, provavelmente por suspeitar que ela tivesse intrigado contra o seu enteado Crispo. Mandou também estrangular o cunhado Licínio, que se havia rendido em troca da vida e chicotear até à morte o seu filho (e sobrinho do próprio Constantino). Foi sucedido pelos seus três filhos com Fausta: Constantino II, Constante I e Constâncio II, os quais dividiram entre si a administração do império até que, depois de uma série de lutas confusas, Constâncio II emergiu como augusto único.

Morte

Na Páscoa de 337 Constantino havia percebido que a sua morte chegaria em breve. Dessa forma chamou Eusébio de Nicomédia e pediu-lhe os sacramentos. Morreu em Ancirona, nos subúrbios de Nicomédia (atual cidade turca de Izmit), ao sul do Mar de Mármara.

Apreciações póstumas

Versão reconstruída do Colosso de Constantino no Museu Capitolino em 2024.
Versão reconstruída do Colosso de Constantino no Museu Capitolino em 2024.
Ícone cretense com os Santos Constantino e Helena. Pintado por Viktor. Meados do século XVII.
Ícone cretense com os Santos Constantino e Helena. Pintado por Viktor. Meados do século XVII.
Constâncio nomeia Constantino como seu sucessor, pintura a óleo de Peter Paul Rubens, 1622.
Constâncio nomeia Constantino como seu sucessor, pintura a óleo de Peter Paul Rubens, 1622.
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Constantino foi uma figura controversa já na sua época: o último imperador pagão, seu sobrinho Juliano, dizia que ele era atraído pelo dinheiro e que buscou acima de tudo, enriquecer-se e aos seus partidários — traço este (de saber enriquecer os seus amigos) que também foi reconhecido pelo historiador Eutrópio e pelo próprio Eusébio de Cesareia. O historiador pagão Zósimo criticou severamente as suas reformas militares. Mas como primeiro imperador cristão, Constantino foi reverenciado durante toda a Idade Média, seja pela cristandade oriental, que o tinha como fundador do Império Bizantino — e a Igreja Ortodoxa acabou por canonizá-lo — seja pela ocidental, que, sem lhe atribuir o status de santo, considerava haver ele criado os Estados Papais, territórios doados ao Papa pela chamada Doação de Constantino. No século XV, o filólogo Lorenzo Valla provou a falsidade da suposta doação, forjada no século VIII como forma de tentar legitimar os poderes temporais do papado. Só com o Iluminismo o seu legado começou a ser pesadamente criticado, e o historiador inglês Edward Gibbon, no seu livro clássico sobre a "A História do Declínio e Queda do Império Romano" caracteriza-o como um general romano de velha cepa a quem o poder absoluto (e, por extensão, o cristianismo) havia convertido num déspota oriental. Com a secularização da sociedade moderna, a apreciação de Constantino em função exclusivamente das suas reformas religiosas perdeu acuidade - e ele passou a ser analisado em termos da sua própria época, como um dos fundadores, juntamente com Diocleciano, do Baixo-Império (ou Dominato), do qual ele estabeleceu as estruturas políticas e sociais básicas.

Constantino reunificou o império sob a autoridade de um único governante e obteve expressivas vitórias militares sobre os francos e alamanos em 306–308, novamente sobre os francos em 313–314, sobre os godos em 332 e sobre os sármatas em 334. Por volta de 336, havia reocupado a maior parte da província da Dácia, há muito perdida, a qual Aureliano fora forçado a abandonar em 271. Por ocasião de sua morte, planejava uma grande expedição militar para pôr termo às incursões do Império Sassânida contra as províncias orientais.

No âmbito cultural, Constantino reviveu o costume do rosto escanhoado dos primeiros imperadores, originalmente introduzido entre os romanos por Cipião Africano (236–183 a.C.) e substituído pelo uso da barba sob Adriano (r. 117–138). Salvo algumas exceções, como Juliano, o Apóstata (r. 360–363), esse padrão estético imperial romano perdurou até o reinado de Focas (r. 602–610), no século VII.

O Sacro Império Romano-Germânico incluía Constantino entre as figuras veneráveis de suas tradições políticas. No Estado bizantino tardio, constituía honra insigne para um soberano ser aclamado como um «novo Constantino»; dez imperadores adotaram seu nome de batismo, incluindo o último imperador do Império Romano do Oriente. Carlos Magno recorreu a expressões monumentais de inspiração constantiniana em sua corte para sugerir que era o legítimo sucessor e par de Constantino. Carlos Magno, Henrique VIII, Filipe II de Espanha, Godofredo de Bulhão, a Casa de Capeto, a Casa de Habsburgo, a Casa de Stuart, a dinastia macedônica e a família Focas reivindicaram ascendência genealógica direta a partir de Constantino. Godofredo de Monmouth romanceou a narrativa lendária de que o rei britânico mítico, o Rei Artur, seria também descendente de Constantino. Constantino adquiriu um papel mítico como herói e guerreiro contra os infiéis. Na tradição lendária bizantina posterior, sua atividade construtora foi projetada para além dos muros de Constantinopla. A obra medieval Pátria de Constantinopla relata que, após subjugar os citas, fundou Persthlaba, Distra, Pliskouba e Konstantia. Sua veneração como santo parece ter se difundido no Império Bizantino durante as guerras contra a Pérsia sassânida e os muçulmanos no final do século VI e ao longo do século VII. O motivo equestre românico — a figura montada na postura de um imperador romano triunfante — converteu-se em metáfora visual escultórica de celebração aos benfeitores locais. O antropônimo Constantino desfrutou de renovada popularidade no oeste da França durante os séculos XI e XII. Durante a era fascista na Itália, no século XX, analogias entre Constantino e Mussolini tornaram-se particularmente frequentes após a celebração do Tratado de Latrão entre o Estado italiano e a Santa Sé em 1929. O papel atribuído a Mussolini na consumação do acordo histórico foi por vezes comparado expressamente ao Édito de Milão de Constantino. Por exemplo, o arcebispo de Milão, cardeal Ildefonso Schuster, afirmou que, após dezesseis séculos, ocorrera uma segunda Marcha sobre Roma e fora celebrado um segundo «pacto religioso», vinculando Mussolini aos spiriti magni tanto de Constantino quanto de Augusto.

O Aeroporto Constantino, o Grande de Niš recebeu essa denominação em sua homenagem. Um projeto para a ereção de uma cruz monumental sobre uma colina sobranceira a Niš chegou a ser concebido, mas foi cancelado. Em 2012, um monumento memorial foi erguido em Niš em sua memória. As celebrações alusivas à Comemoração do Édito de Milão tiveram lugar em Niš em 2013.

Constantino é por vezes associado à ideologia sociorreligiosa conhecida como cesaropapismo, que encarna a união e subordinação mútua entre Igreja e Estado. Contudo, a pertinência de sua vinculação direta a essa ideologia permanece objeto de debates acadêmicos.

Veneração como santo

Constantino é comemorado anualmente como santo primordialmente pelas Igrejas Cristãs Orientais.

As Igrejas Ortodoxas autocéfalas e as Igrejas Católicas Orientais em comunhão com a Igreja Católica veneram São Constantino (Άγιος Κωνσταντίνος) sob o título de isapóstolo (ισαπόστολος Κωνσταντίνος) — um igual aos apóstolos. Ele e sua mãe, Santa Helena, são comemorados liturgicamente no dia 21 de maio, com próprios litúrgicos compostos para o Horologion (como nas Grandes Vésperas) e para a Divina Liturgia. Diversos mosteiros, santuários e templos ortodoxos afirmam custodiar relíquias de primeira classe de Constantino.

A Igreja Ortodoxa Copta celebra São Constantino no dia 28 de Parmouti.

A Igreja Católica Maronita comemora-o juntamente com Santa Helena em 21 de maio.

A Igreja Apostólica Armênia celebra a memória de São Constantino e Santa Helena na terça-feira da quarta semana após Pentecostes. A Igreja Católica Armênia comemora ambos em 1.º de julho.

Constantino não é reconhecido oficialmente como santo na Igreja Latina da Igreja Católica, embora tenha figurado sob o tratamento de piissimi Imperatoris («imperador piíssimo») em edições do Martyrologium Romanum até a reforma de 1956.

Comunidades do luteranismo, a exemplo da Igreja Luterana - Sínodo de Missouri, comemoram o imperador Constantino e sua mãe Helena no calendário litúrgico em 21 de maio.

Historiografia

Durante a vida de Constantino, autores pagãos como Praxágoras de Atenas e Libânio cumularam-no de elogios, descrevendo-o como um paradigma de retidão moral. Seu sobrinho e genro, Juliano, o Apóstata, redigiu contudo a sátira Banquete ou as Saturnais em 361, após o falecimento do último de seus filhos; a obra depreciava Constantino, considerando-o inferior aos grandes imperadores da Antiguidade pagã e caracterizando-o como homem afeito ao luxo e à avareza. Na esteira de Juliano, Eunápio iniciou — e Zósimo consolidou — uma tradição historiográfica que culpava Constantino por ter debilitado o império em razão de suas concessões e indulgências aos cristãos.

Durante a Idade Média, cronistas bizantinos e autores da Europa Ocidental retrataram Constantino como o arquétipo do soberano ideal, a bitola contra a qual qualquer monarca ou imperador deveria ser avaliado. A redescoberta de fontes desfavoráveis a Constantino durante o Renascimento estimulou uma revisão crítica de sua trajetória biográfica. O humanista alemão Johannes Leunclavius localizou os manuscritos de Zósimo e publicou uma tradução latina em 1576. No prefácio, sustentou que o retrato apresentado por Zósimo oferecia um panorama mais equilibrado e desapaixonado do que as crônicas de Eusébio e dos historiadores eclesiásticos. O cardeal César Barônio rechaçou as teses de Zósimo, privilegiando os relatos de Eusébio sobre a era constantiniana. A Vida de Constantino (1588) de Barônio retratou o imperador como o modelo supremo do príncipe cristão. Edward Gibbon, em sua monumental obra A História do Declínio e Queda do Império Romano (1776–1789), procurou conciliar os dois extremos da erudição constantiniana contrapondo os testemunhos divergentes de Eusébio e Zósimo. Gibbon delineou um nobre líder guerreiro que, na velhice, degenerou em um déspota oriental, «decaído num monarca cruel e dissoluto».

As interpretações modernas do principado constantiniano têm seu marco inaugural na obra de Jacob Burckhardt, A Época de Constantino, o Grande (1853, rev. 1880). O Constantino de Burckhardt é um secularista calculista e pragmático, um político hábil que manipulou todas as forças sociais e religiosas com o intuito de consolidar seu poder autocrático. Henri Grégoire seguiu a abordagem de Burckhardt na década de 1930, sugerindo que Constantino manifestou interesse pelo cristianismo unicamente após constatar sua utilidade política. Grégoire questionou a autenticidade da Vita eusebiana, postulando a existência de um pseudo-Eusébio responsável pela inserção posterior dos episódios da visão e da conversão. A obra de Otto Seeck, Geschichte des Untergangs der antiken Welt (1920–1923), e o estudo de André Piganiol, L'empereur Constantin (1932), contrastam com essa linhagem cética. Seeck caracterizou Constantino como um comandante militar sincero cujas contradições decorriam de uma ingenuidade e incoerência pessoal. O Constantino de Piganiol figura como um monoteísta filosófico, produto típico do sincretismo religioso de sua época. Estudos correlatos de Arnold Hugh Martin Jones (Constantine and the Conversion of Europe, 1949) e Ramsay MacMullen (Constantine, 1969) delinearam o retrato de um governante menos místico e mais intempestivo.

Pesquisas mais recentes demonstraram maior receptividade à tese de uma conversão genuína de Constantino ao cristianismo. Norman H. Baynes inaugurou essa corrente com Constantine the Great and the Christian Church (1929), apresentando-o como um cristão convicto, leitura corroborada por Andreas Alföldi em The Conversion of Constantine and Pagan Rome (1948). A biografia de Timothy Barnes, Constantine and Eusebius (1981), representa o apogeu dessa orientação: o Constantino de Barnes vivenciou uma conversão radical que o impulsionou a uma cruzada pessoal para converter as estruturas do império. O estudo de Charles Matson Odahl, Constantine and the Christian Empire (2004), perfilha linha equivalente. Nada obstante a obra de Barnes, as controvérsias sobre a profundidade e a autenticidade da conversão religiosa do imperador permanecem abertas. Aspectos dessa vertente foram levados a formulações extremas por T. G. Elliott em The Christianity of Constantine the Great (1996), que defende ter sido o soberano um cristão convicto desde a infância. O historiador Paul Veyne, em sua obra de 2007, Quand notre monde est devenu chrétien, esposa perspectiva similar: sem conjecturar sobre as origens íntimas de sua fé, descreve-o como um revolucionário religioso que acreditava piamente estar predestinado «a desempenhar um papel providencial na economia milenar da salvação da humanidade». Peter Heather argumenta que o pai de Constantino, Constâncio Cloro, foi provavelmente um cristão discreto que educou o filho nessa fé, e que Constantino ocultou sua confissão religiosa enquanto tal postura representava risco político, assumindo-a gradualmente à medida que consolidava sua hegemonia indisputada.

Doação de Constantino

Os cristãos de tradição latina consideravam embaraçoso o fato de Constantino ter recebido o batismo apenas no leito de morte e pelas mãos de um bispo adepto da heresia ariana; em decorrência disso, emergiu no início do século IV a lenda nos Atos de Silvestre de que o Papa Silvestre I teria curado milagrosamente o imperador pagão da lepra. De acordo com essa narrativa piedosa, Constantino fora batizado por Silvestre e iniciara incontinente as obras da Arquibasílica de São João de Latrão. No século VIII, muito provavelmente durante o pontificado do Papa Estêvão II, foi forjado o apócrifo da Doação de Constantino, no qual o imperador recém-convertido outorgaria a cidade de Roma e todas as províncias, distritos e cidades da Itália e das regiões ocidentais a Silvestre e aos seus sucessores na Sé Apostólica. Na Plena Idade Média, esse diploma espúrio foi utilizado e aceito juridicamente como o fundamento do poder temporal dos papas, embora tenha sido denunciado como falsificação pelo imperador Otão III e lamentado por Dante Alighieri como a raiz histórica do mundanismo da cúria papal. O filólogo e sacerdote católico humanista Lorenzo Valla demonstrou cabalmente em 1440, por meio da crítica textual e documental, que o manuscrito constituía uma falsificação medieval.

A Historia de Godofredo de Monmouth

Durante a Idade Média, as populações bretãs consideravam Constantino um monarca de sua própria estirpe, associando-o particularmente a Caernarfon, no Reino de Gwynedd. Embora parte dessa tradição decorra de sua notoriedade histórica e de sua proclamação como imperador em solo da Britânia romana, houve também confusão genealógica com a suposta esposa de Magno Máximo, Elen, e com seu filho, outro Constantino (em galês: Custennin). No século XII, Henrique de Huntingdon inseriu uma passagem em sua Historia Anglorum afirmando que a mãe do imperador Constantino era bretã, tornando-a filha de Rei Cole de Colchester. Godofredo de Monmouth ampliou essa narrativa em sua romanceada obra Historia Regum Britanniae, crônica dos supostos reis lendários da Grã-Bretanha desde suas míticas origens em Troia até a invasão anglo-saxônica. Segundo a narrativa de Godofredo, Cole reinava sobre os bretões quando Constâncio Cloro, retratado como senador romano, aportou na ilha. Temeroso das forças imperiais, Cole submete-se às leis romanas sob a condição de conservar o trono. Todavia, morre escasso mês depois, assumindo Constâncio a coroa e consorciando-se com a princesa Helena. Da união nasce Constantino, que sucede ao pai como rei da Britânia antes de ascender ao trono imperial em Roma.

Sob o prisma estritamente histórico, essa cadeia de episódios carece de qualquer fundamento. Constâncio já havia se separado de Helena anos antes de sua expedição à Britânia. Ademais, nenhuma fonte primária da Antiguidade sugere que Helena houvesse nascido na Britânia ou que pertencesse a alguma linhagem régia insular. A fonte textual utilizada por Henrique de Huntingdon para essa tradição é desconhecida, conjeturando-se que provenha de uma hagiografia perdida de Helena.

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