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Salvação no Cristianismo

Salvação no Cristianismo

No cristianismo, a salvação (também chamada de libertação ou redenção) é a salvação dos seres humanos do pecado e de suas consequências — que incluem a morte e a separação de Deus — pela morte de Cristo e a sua ressurreição, e a justificação decorrente dessa salvação.

A visão da morte de Jesus como meio de expiação pelo pecado da humanidade é registrada na Bíblia e elaborada nas epístolas de Paulo e nos Evangelhos. Paulo ensinava que os fiéis são redimidos pela participação na morte e na ressurreição de Jesus. Os primeiros cristãos se consideravam participantes de uma nova aliança com Deus, aberta tanto a judeus quanto a gentios, através da morte sacrificial e subsequente exaltação de Jesus Cristo.

As crenças dos cristãos primitivos a respeito da pessoa e do papel sacrificial de Jesus na salvação da humanidade foram posteriormente elaboradas pelos Padres da Igreja, por escritores medievais e por estudiosos modernos em várias teorias da expiação, como a teoria do resgate, a visão Christus Victor, a recapitulação, a visão da satisfação, a teoria da substituição penal e a teoria da influência moral.

As diferentes visões sobre a salvação (soteriologia) estão entre os principais pontos de divisão entre as várias denominações cristãs, incluindo definições conflitantes acerca do pecado, da depravação (a natureza pecaminosa da humanidade), da justificação (os meios de Deus para remover as consequências do pecado) e da expiação (o perdão ou absolvição do pecado através do sofrimento, morte e ressurreição de Jesus).

Definição e âmbito de aplicação

A salvação, ou libertação ou redenção, no âmbito do cristianismo, é definida como sendo a "salvação dos seres humanos da morte e da separação de Deus" por meio da morte e ressurreição de Cristo.

A salvação cristã não diz respeito apenas à expiação em si, mas também à questão de como participar dessa salvação, por meio da fé, do batismo ou da obediência; e à questão sobre se essa salvação é individual ou universal. Envolve ainda questões a respeito da vida após a morte, como por exemplo, "céu, inferno, purgatório, sono da alma e aniquilação". As divergências entre as várias denominações incluem definições conflitantes de pecado, justificação e expiação.

Relato bíblico

As referências do Antigo Testamento à Redenção podem ser encontradas em Salmos 130:8 e em Esdras 3:1–13.

Pecado

O apóstolo João, em sua primeira epístola, define o pecado como "iniquidade". No cristianismo ocidental (diferenciando-se da Ortodoxia Oriental), a hamartiologia cristã descreve o pecado como um ato de ofensa contra Deus, mostrando desprezo à sua pessoa e a lei bíblica, e prejudicando a outros. É um ato humano maligno, que viola a natureza racional do homem, bem como a natureza de Deus e sua lei eterna. De acordo com a definição clássica de Agostinho de Hipona, o pecado é "uma palavra, ação ou desejo em oposição à lei eterna de Deus".

A tradição cristã explica o pecado como um aspecto fundamental da existência humana, causado pelo pecado original — a queda do homem que resultou da rebelião de Adão no Jardim do Éden, ao comer o fruto proibido da árvore do conhecimento do bem e do mal. O apóstolo Paulo defende este ponto de vista em Romanos 5:12–19, e Agostinho de Hipona popularizou sua interpretação no Ocidente, desenvolvendo-a em uma noção de "pecado hereditário", argumentando que Deus responsabiliza todos os descendentes de Adão e Eva pela rebelião de Adão e, assim, todas as pessoas merecem a ira de Deus — independentemente de quaisquer pecados reais que tenham cometido pessoalmente.

A depravação total (também chamada de "corrupção radical" ou "depravação generalizada") é uma doutrina teológica protestante derivada do conceito do pecado original. Esta doutrina ensina que, como consequência da queda do homem, toda pessoa nascida no mundo é escravizada pelo pecado como resultado de sua natureza inerentemente decaída e, à parte da graça (irresistível ou preveniente) de Deus, é totalmente incapaz de escolher seguir a Deus, de abster-se do mal ou de aceitar a dádiva da salvação que lhe é oferecida. A depravação total é defendida em vários graus por muitas confissões de fé e catecismos protestantes, incluindo os de alguns sínodos luteranos e pelo calvinismo, que ensina a graça irresistível. Os cristãos arminianos, como por exemplo os metodistas, também creem e ensinam a depravação total, mas com a distinta diferença de ensinar a graça preveniente.

Justificação

Na âmbito da teologia cristã, a justificação é o ato de Deus de remover a culpa e a pena do pecado, tornando o pecador justo, através do sacrifício expiatório de Cristo. Os meios de justificação são uma área de significativa discordância entre o catolicismo, a ortodoxia e o protestantismo. A justificação é frequentemente vista como a linha divisória teológica que separou a tradição católica das tradições protestantes, principalmente a luterana, anglicana e reformada, durante o período da Reforma.

De um modo geral, a Igreja Católica, a Igreja Ortodoxa Oriental, as Igrejas Ortodoxas Orientais e a Igreja do Oriente fazem distinção entre justificação inicial, que, em suas visões, ocorre normalmente no batismo; e a salvação final, alcançada após uma vida inteira de esforço para cumprir a vontade de Deus (teose ou divinização).

A teose é um processo de transformação cujo objetivo é a semelhança ou a união com Deus, conforme ensinado pelas Igrejas Orientais (Ortodoxa, Católica Oriental e Ortodoxa Oriental). Como um processo de transformação, a teose é alcançada pelos efeitos da catarse (purificação da mente e do corpo) e da teoria ('iluminação' com a 'visão' de Deus). De acordo com o ensinamento cristão oriental, a teose é o propósito último da vida humana. Considera-se que ela só pode ser alcançada por meio de uma sinergia (ou cooperação) entre a atividade humana e as energias (ou operações) incriadas de Deus. O termo sinônimo divinização é o efeito transformador da graça divina, do Espírito de Deus, ou da expiação de Cristo. Teose e divinização são considerados como distintos da santificação, "ser feito santo", que também pode se aplicar a objetos; e da apoteose, também "divinização", lit. "tornar divino").

Os católicos creem que a fé que se manifesta na caridade e nas boas obras (fides caritate formata) pode justificar o homem, ou remover dele o fardo da culpa no pecado. O perdão do pecado existe e é natural, mas a justificação pode ser perdida pelo pecado mortal.

No ensino protestante, o pecado é meramente "encoberto" enquanto a justiça é imputada. No luteranismo, no anglicanismo e no cristianismo reformado, a justiça de Deus é vista como sendo creditada à conta do pecador somente pela fé, sem qualquer mérito das obras. Os protestantes acreditam que a fé sem obras pode justificar o homem uma vez que Cristo morreu pelos pecadores, mas qualquer pessoa que tenha uma fé verdadeira produzirá boas obras como produto de sua fé, assim como uma árvore boa produz frutos bons. Para os luteranos, a justificação pode ser perdida com a perda da fé ou com o pecado mortal.

Expiação

A palavra "expiação" é frequentemente usada no Antigo Testamento para traduzir as palavras hebraicas kippur e kippurim que significam "propiciação" ou "expiação". De acordo com o Collins English Dictionary, a palavra expiação é usada para descrever a obra salvadora que Deus concedeu (através de Cristo) para reconciliar o mundo consigo mesmo, e também o estado de uma pessoa reconciliada com Deus. De acordo com o The Oxford Dictionary of the Christian Church, expiação na teologia cristã é "a reconciliação do homem com Deus através da morte sacrificial de Cristo".

Muitos cristãos creem em uma expiação ilimitada; no entanto, alguns cristãos defendem uma expiação limitada àqueles que são predestinados à salvação, pois seus principais benefícios não são concedidos a toda a humanidade, mas sim apenas aos crentes.

Teorias da expiação

Diversas metáforas, termos e referências do Antigo Testamento foram utilizadas nos escritos do Novo Testamento para compreender a pessoa e a morte de Jesus. A partir do século II d.C., várias interpretações da expiação foram apresentadas para explicar a morte e a ressurreição de Jesus, bem como as metáforas aplicadas pelo Novo Testamento para compreender sua morte. Ao longo dos séculos, os cristãos defenderam diversas ideias sobre como Jesus salva as pessoas, com diferentes pontos de vista ainda existindo atualmente nas diversas denominações cristãs. Segundo o estudioso bíblico C. Marvin Pate, "...há três aspectos da expiação de Cristo segundo a Igreja primitiva: expiação vicária [expiação substitucionária], a derrota escatológica de Satanás [Christus Victor] e a imitação de Cristo [participação na morte e ressurreição de Jesus]." Pate observa ainda que estes três aspetos estavam interligados nos primeiros escritos cristãos, mas que esta interligação se perdeu após os tempos patrísticos. Devido à influência da obra Christus Victor de Gustaf Aulén, de 1931, as várias teorias ou paradigmas da expiação que se desenvolveram após os escritos do Novo Testamento são frequentemente agrupados sob o "paradigma clássico", o "paradigma objetivo" e o "paradigma subjetivo".

Antigo Testamento

Nos escritos hebraicos, Deus é absolutamente justo, e somente pessoas puras e sem pecado podem se aproximar dele. A reconciliação é alcançada por meio de um ato de Deus, a saber, por sua instituição do sistema sacrificial, ou, conforme a visão dos profetas, “pela futura dádiva divina de uma nova aliança, para substituir a antiga aliança que o Israel quebrou”. O Antigo Testamento descreve três tipos de expiação vicária que resultam em pureza ou ausência de pecado: o Cordeiro Pascal; “o sistema sacrificial como um todo”, com o Dia da Expiação como o elemento mais essencial; e a ideia do servo sofredor (Isaías 42:1–9, 49:1–6, 50:4–11, 52:13–53:12), “a ação de um 'Servo do Senhor' enviado por Deus que foi ‘ferido pelas nossas transgressões’ e ‘levou sobre si o pecado de muitos’”. Os livros apócrifos do Antigo Testamento acrescentam uma quarta ideia, a saber, o mártir justo (2 Macabeus, 4 Macabeus, Sabedoria 2–5).

Essas tradições de expiação ofereciam apenas um perdão temporário, e os sacrifícios só poderiam ser usados como meio de expiar o tipo mais leve de pecado, isto é, pecados cometidos por ignorância de que tal ação era um pecado. Além disso, os sacrifícios não teriam efeito expiatório a não ser que a pessoa que fizesse a oferta se arrependesse sinceramente de suas ações antes de oferecer os sacrifícios e fizesse restituição a qualquer pessoa que tivesse sido prejudicada pela violação da lei. Marcus Borg observa que o sacrifício de animais no judaísmo do Segundo Templo não era um "pagamento pelo pecado", mas tinha um significado mais básico como "tornar algo sagrado ao dá-lo como uma oferta a Deus", e incluía uma refeição compartilhada com Deus. Os sacrifícios tinham vários propósitos, a saber, ação de graças, súplica, purificação e reconciliação. Nenhum deles era um "pagamento, substituição ou satisfação", e mesmo os "sacrifícios de reconciliação visavam restaurar o relacionamento". James F. McGrath cita 4 Macabeus 6, "que apresenta um mártir orando: 'Sê misericordioso para com o teu povo, e que o nosso castigo lhes baste. Faze do meu sangue a sua purificação, e toma a minha vida em troca da deles' (4 Mac. 6:28-29). Claramente, existiam ideias no judaísmo da época que ajudavam a dar sentido à morte dos justos em termos de expiação."

Novo Testamento

Igreja em Jerusalém

O texto de 1 Coríntios 15:3–8 traz o kerigma anunciado pelos primeiros cristãos:

[3] Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, [4] e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, [5] e que foi visto por Cefas e depois pelos doze. [6] Depois, foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também. [7] Depois, foi visto por Tiago, depois, por todos os apóstolos [8] e, por derradeiro de todos, me apareceu também a mim, como a um abortivo.

— 1 Coríntios 15:3-8

Na igreja em Jerusalém, onde Paulo recebeu este credo, a expressão “morreu por nossos pecados” provavelmente era uma justificativa apologética para a morte de Jesus como parte do plano e do propósito de Deus, conforme evidenciado nas escrituras. A frase “morreu por nossos pecados” é derivada do Livro de Isaías, especialmente Isaías 53:1–11, e de 4 Macabeus, especialmente 4 Macabeus 6:28–29. “Ressuscitou ao terceiro dia” é derivado de Oséias 6:1–2:

Vinde, e tornemos para o Senhor,
porque ele despedaçou e nos sarará,
fez a ferida e a ligará.
Depois de dois dias, nos dará a vida;
ao terceiro dia, nos ressuscitará,
e viveremos diante dele. "

Logo após a morte de Jesus, seus seguidores acreditaram que ele havia sido ressuscitado por Deus e exaltado à condição divina de Senhor (Kyrios) “à ‘destra’ de Deus” o que “o associa de maneiras surpreendentes a Deus”. Segundo Hurtado, experiências religiosas poderosas foram um fator indispensável no surgimento dessa devoção a Cristo. Essas experiências “parecem ter incluído visões do céu, nas quais o Cristo glorificado era visto em uma posição exaltada”. Essas experiências foram interpretadas no contexto dos propósitos redentores de Deus, conforme refletidos nas escrituras, em uma “interação dinâmica entre a busca devota e orante por textos bíblicos e a ponderação sobre eles, e a continuidade de experiências religiosas poderosas”. Isto iniciou um “novo padrão devocional sem precedentes no monoteísmo judaico”, isto é, a adoração de Jesus ao lado de Deus, dando a Jesus um lugar central, pois o seu ministério e as consequências deste ministério tiveram um forte impacto em seus primeiros seguidores. As revelações, incluindo essas visões, mas também as declarações inspiradas e espontâneas, e a “exegese carismática” das escrituras judaicas, convenceram-nos de que esta devoção era ordenada por Deus.

Paulo

O que o kerigma de 1 Coríntios 15:3–8 significava para Paulo é questão de debate e está aberto a múltiplas interpretações. Para Paulo, o termo “morrer por nossos pecados” adquiriu um significado mais profundo, fornecendo “uma base para a salvação dos gentios pecadores à parte da Torá”.

Tradicionalmente, este kerigma é interpretado como significando que a morte de Jesus foi, ou uma “expiação” pelo pecado, ou um resgate, ou um meio de propiciar a Deus ou expiar a ira de Deus contra a humanidade por causa de seus pecados. Com a morte de Jesus, a humanidade foi libertada dessa ira. Na visão protestante clássica, as pessoas participam dessa salvação por meio da fé em Jesus Cristo; essa fé é uma graça dada por Deus, e as pessoas são justificadas por Deus através de Jesus Cristo e da fé nele.

Em 1963, um pesquisador, precedendo a Nova Perspectiva sobre Paulo, levantou diversas preocupações a respeito dessas interpretações. A interpretação tradicional vê a compreensão de Paulo sobre a salvação como envolvendo "uma exposição da relação do indivíduo com Deus". De acordo com Krister Stendahl, a principal preocupação dos escritos de Paulo sobre o papel de Jesus e a salvação pela fé não é a consciência individual dos pecadores humanos e suas dúvidas sobre serem escolhidos por Deus ou não, mas sim o problema da inclusão dos gentios observadores da Torá na aliança de Deus. Paulo se baseia em várias estruturas interpretativas para resolver esse problema, mas, principalmente, na sua própria experiência e compreensão. O kerigma encontrado em 1 Coríntios 15:3-5 refere-se a duas mitologias: o mito grego dos mortos nobres, ao qual a noção macabeia de martírio e morte pelo povo se relaciona; e o mito judaico do justo perseguido, em particular a “história do filho da sabedoria”. Para Paulo, a noção de “morrer por” refere-se a esse martírio e perseguição. Segundo Burton Mack, “morrer por nossos pecados” refere-se ao problema dos observadores gentios da Torá, que, apesar de sua fidelidade, não conseguem observar plenamente os mandamentos, incluindo a circuncisão, e são, portanto, “pecadores”, excluídos da aliança de Deus. A morte e ressurreição de Jesus resolveram esse problema da exclusão dos gentios da aliança de Deus, conforme indicado em Romanos 3:21–26.

De acordo com E.P. Sanders, um dos principais proponentes da Nova Perspectiva sobre Paulo, Paulo via os fiéis como sendo redimidos pela participação na morte e na ressurreição de Jesus. Mas “a morte de Jesus substituiu a de outros e, assim, libertou os crentes do pecado e da culpa”, uma metáfora derivada da “antiga teologia sacrificial”, a essência da escrita de Paulo não está nos “termos legais” referentes à expiação do pecado, mas no ato de “participação em Cristo por meio da morte e ressurreição com ele”. Segundo Sanders, “aqueles que são batizados em Cristo são batizados na sua morte e, assim, escapam do poder do pecado [...] ele morreu para que os crentes possam morrer com ele e, consequentemente, viver com ele”. James F. McGrath observa que Paulo "prefere usar a linguagem da participação. Um morreu por todos, logo todos morreram (2 Coríntios 5:14). Isso não só é diferente da substituição, como é o oposto dela." Por meio dessa participação na morte e ressurreição de Cristo, "a pessoa recebe o perdão de ofensas passadas, é libertada dos poderes do pecado e recebe o Espírito." Paulo insiste que a salvação é recebida pela graça de Deus; segundo Sanders, essa insistência está em consonância com o judaísmo do período de c. 200 a.C até 200 d.C, que via a aliança de Deus com Israel como um ato da graça de Deus. A observância da Lei é necessária para manter a aliança, mas a aliança não é conquistada pela observância da Lei, mas sim pela graça de Deus.

Várias passagens dos escritos de Paulo, como Romanos 3:25, são tradicionalmente interpretadas como significando que a humanidade é salva pela fé em Cristo. De acordo com Richard B. Hays, que iniciou o debate sobre a“Pistis Christou”, uma leitura diferente dessas passagens também é possível. A expressão pistis Christou pode ser traduzida como “fé em Cristo”, isto é, salvação por crer em Cristo, que é a interpretação tradicional; mas também pode ser traduzida como “fidelidade de Cristo”, isto é, crença “através da fidelidade de Jesus Cristo”. Nessa perspectiva, segundo Cobb, a vida e a morte de Jesus não foram vistas por Paulo como uma expiação, mas sim como um meio de participar da sua fidelidade. Nesta interpretação, Romanos 3:21–26 afirma que Jesus foi fiel, mesmo ao custo da morte, e justificado por Deus por essa fidelidade. Aqueles que participam dessa fidelidade são igualmente justificados por Deus, tanto judeus quanto gentios. Embora essa visão tenha encontrado apoio de vários estudiosos, ela também foi igualmente questionada e criticada

Evangelhos

Nos Evangelhos, Jesus é retratado chamando as pessoas ao arrependimento do pecado e afirmando que Deus quer misericórdia no lugar de sacrifícios (Mateus 9,13). No entanto, ele também é retratado como sendo aquele que veio para "dar a sua vida em resgate por muitos" e aplicando a si mesmo a passagem do "servo sofredor" de Isaías 53 (Lucas 22,37). O Evangelho segundo João o retrata como o Cordeiro sacrificial de Deus e compara a sua morte ao sacrifício do Cordeiro Pascal na Páscoa judaica.

Os cristãos afirmam que Jesus foi predito por Isaías, como atestado em Lucas 4:16–22, onde Jesus é retratado dizendo que as profecias em Isaías eram sobre ele. O Novo Testamento cita explicitamente o texto de Isaías 53 em Mateus 8:16–18 para indicar que Jesus é o cumprimento dessas profecias.

Paradigma clássico

Teoria do Resgate

A visão do resgate na expiação ensina que Cristo libertou a humanidade da escravidão do pecado, de Satanás, e, consequentemente, da morte, dando a sua própria vida como resgate a Satanás, trocando a vida do perfeito (Jesus) pelas vidas dos imperfeitos (outros humanos). Implica a ideia de que Deus enganou o diabo e que Satanás, ou a morte, tinha "direitos legítimos" sobre as almas pecadoras na vida após a morte, por conta da queda do homem e do pecado herdado. Durante o priameiro milênio d.C., a teoria do resgate foi a metáfora dominante para a expiação, tanto no cristianismo oriental quanto no ocidental, até ser substituída no Ocidente pela teoria da satisfação da expiação de Anselmo.

Em uma versão da ideia do engano, Satanás tentou tomar a alma de Jesus após sua morte, mas, ao fazê-lo, extrapolou sua autoridade, uma vez que Jesus nunca pecou. Consequentemente, Satanás perdeu totalmente sua autoridade, e assim, toda a humanidade ganhou a liberdade. Em outra versão, Deus fez um acordo com Satanás, oferecendo a alma de Jesus em troca das almas de todas as pessoas, no entanto, após a troca, Deus ressuscitou Jesus dos mortos e deixou Satanás sem nada. Outras versões defendem que a divindade de Jesus estava mascarada por sua forma humana, então Satanás tentou tomar a alma de Jesus, sem perceber que sua divindade destruiria o poder de Satanás. Outra ideia é que Jesus veio ensinar como não pecar, e Satanás, enfurecido com isso, tentou tomar sua alma.

A teoria do resgate foi enunciada de forma clara pela primeira vez por Irineu de Lyon (c. 130 - c. 202), que era um crítico ferrenho do Gnosticismo, mas tomou emprestadas ideias de sua visão de mundo dualista. Nessa cosmovisão, a raça humana está sob o poder do Demiurgo, um deus menor que criou o mundo. No entanto, os seres humanos têm dentro de si uma centelha da natureza divina, que pode ser libertada por meio da gnose (conhecimento) dessa centelha divina. Esse conhecimento é revelado pelo Logos, "a própria mente do Deus supremo", que entrou no mundo na pessoa de Jesus. Porém, o Logos não podia meramente desfazer o poder do Demiurgo, e teve que ocultar sua verdadeira identidade, aparecendo em forma física, enganando assim o Demiurgo e libertando a raça humana. Nos escritos de Irineu, o Demiurgo é substituído pelo diabo.

Orígenes (184–253) introduziu a ideia de que o diabo tinha direitos legítimos sobre os homens, que por sua vez foram libertados pelo sangue de Cristo. Ele também introduziu a ideia de que o Diabo estaria enganado ao pensar que poderia dominar a alma humana.

O teólogo Gustaf Aulén reinterpretou a teoria do resgate em seu livro Christus Victor (1931), chamando-a de doutrina do Christus Victor, argumentando que a morte de Cristo não foi um pagamento ao Diabo, mas derrotou os poderes do mal, particularmente Satanás, que mantinham a humanidade sob seu domínio. De acordo com Pugh, "Desde a época de [Aulén], nós chamamos essas ideias patrísticas de modo Christus Victor de ver a cruz."

Teoria da recapitulação

A teoria da recapitulação, expressa pela primeira vez de forma abrangente por Irineu de Lyon, andava "de mãos dadas" com a visão do resgate. Ela afirma que Cristo teve sucesso onde Adão falhou, desfazendo o mal que Adão fez e, através de sua união com a humanidade, conduzindo esta à vida eterna, incluindo a perfeição moral. A teose ("divinização") é um "corolário" da recapitulação.

Paradigma objetivo

Satisfação

Na segunda metade do século XI, em sua obra Cur Deus Homo, Anselmo de Cantuária rejeitou a visão do resgate e propôs a visão de satisfação da expiação. Ele descreveu Deus como um senhor feudal cuja honra havia sido ofendida pelos pecados da humanidade. Nessa visão, as pessoas precisavam de salvação da punição divina que essas ofensas trariam, já que nada que pudessem fazer seria suficiente para pagar a dívida de honra. Anselmo defendia que Cristo havia honrado infinitamente a Deus por meio de sua vida e morte, e que somente Cristo seria capaz de pagar o que a humanidade devia a Deus, satisfazendo assim a ofensa à honra de Deus, e eliminando a necessidade de punição. Quando Anselmo propôs a visão da satisfação, ela foi prontamente criticada por Pedro Abelardo.

Substituição penal

No século XVI, os defensores da Reforma Protestante reinterpretaram a teoria da satisfação de Anselmo dentro de um paradigma legal. No sistema legal, as ofensas exigiam punição, e nenhuma satisfação podia ser dada para evitar essa necessidade. Eles propuseram uma visão conhecida como substituição penal, na qual Cristo sofre a pena do pecado das pessoas como seu substituto, salvando-as assim da ira de Deus contra o pecado. A substituição penal apresenta, portanto, Jesus salvando as pessoas da punição divina por seus erros. No entanto, essa salvação não é apresentada como automática. Em vez disso, uma pessoa precisa ter fé para receber o dom gratuito da salvação. Na visão da substituição penal, a salvação não depende de esforço humano ou de boas obras.

A teoria da substituição penal da salvação é amplamente aceito entre os protestantes, que frequentemente a consideram central para o cristianismo. Porém, esta visão também tem sido amplamente criticada e é rejeitada por cristãos liberais como não bíblica e uma ofensa ao amor de Deus. Segundo Richard Rohr, "esta teoria é baseada na justiça retributiva em vez da justiça restaurativa que os profetas e Jesus ensinaram." Os defensores da Nova Perspectiva sobre Paulo também argumentam que muitas epístolas de Paulo, que são usadas para apoiar a teoria da substituição penal, devem ser interpretadas de forma diferente.

Visão Governamental

A visão governamental da expiação afirma que Cristo sofreu pela humanidade para que Deus pudesse perdoar os humanos sem puni-los, sem deixar de manter, ao mesmo tempo, a justiça divina. Esta visão é tradicionalmente ensinada em alguns círculos arminianos, baseando-se principalmente nas obras de Hugo Grócio.

Paradigma subjetivo

Influência moral

A teoria da influência moral da expiação foi desenvolvida, ou mais notavelmente propagada, por Pedro Abelardo (1079–1142), como uma alternativa à teoria da satisfação de Anselmo. Abelardo não apenas "rejeitou a ideia da morte de Jesus como um resgate pago a Satanás", o que transformava o Diabo em uma espécie de deus rival, mas também se opôs à ideia de que a morte de Jesus era uma "dívida paga à honra de Deus". Ele também se opôs à ênfase no julgamento de Deus e à ideia de que Deus mudou de ideia depois que o pecador aceitou a morte sacrificial de Jesus, o que não era facilmente conciliável com a ideia do "Deus perfeito e impassível que não muda". Abelardo concentrou-se em mudar a percepção do homem sobre Deus – para ser visto, não como ofendido, severo e julgador, mas sim como amoroso. De acordo com Abelardo, “Jesus morreu como uma demonstração do amor de Deus”, uma demonstração que é capaz de mudar os corações e as mentes dos pecadores, fazendo-os voltar para Deus.

Durante a Reforma Protestante, a maioria dos reformadores rejeitou fortemente a visão da influência moral da expiação em favor da visão de substituição penal, uma modificação altamente forense da teoria de satisfação de Anselmo, que era orientada para a honra de Deus. No entanto, o ramo sociniano da Reforma, liderado por Fausto Socino, manteve a crença na visão da influência moral da expiação. O socinianismo era uma forma inicial de unitarismo, e a Igreja Unitária hoje mantém uma visão da influência moral da expiação, assim como muitos teólogos protestantes liberais da era moderna.

Durante o século XVIII, versões da visão da influência moral encontraram apoio esmagador entre teólogos alemães, principalmente o filósofo iluminista Immanuel Kant. Nos séculos XIX e XX, esta visão tornou-se popular entre pensadores protestantes liberais das igrejas Anglicana, Metodista, Luterana e Presbiteriana, como é o exemplo do teólogo anglicano Hastings Rashdall. Diversas obras teológicas inglesas dos últimos cem anos defenderam e popularizaram a teoria da influência moral da expiação.

Uma forte divisão persiste desde o período da Reforma, entre os protestantes liberais (que geralmente adotam uma visão de influência moral) e conservadores (que geralmente adotam uma visão de substituição penal). Ambos os lados acreditam que a sua posição é a visão ensinada pela Bíblia.

Teoria do exemplo moral

Uma teoria relacionada, a teoria do exemplo moral, foi desenvolvida por Fausto Socino (1539–1604) em sua obra rk De Jesu Christo servatore (1578). Ele rejeitou a ideia de "satisfação vicária". Segundo Socino, A morte de Jesus nos oferece um exemplo perfeito de dedicação autosacrifical a Deus.

Diversos teólogos veem as teorias do "exemplo" (ou "exemplar") da expiação apenas como variações da teoria da influência moral. Wayne Grudem, no entanto, argumenta que "enquanto a teoria da influência moral diz que a morte de Cristo nos ensina o quanto Deus nos ama, a teoria do exemplo diz que a morte de Cristo nos ensina como devemos viver". Grudem identifica os socinianos como apoiadores da teoria do exemplo.

Outras teorias

Teoria da aceitação

 Domenic Marbaniang enxerga a entrega voluntária de si mesmo por Deus como a aceitação final da humanidade em seu ato máximo de pecado, a saber, o deicídio [assassinato de Deus], cancelando assim o pecado na cruz. Consequentemente, a Cruz torna-se o momento e o lugar na história onde o mundo se divide entre aqueles que se identificam com os crucificadores de Cristo e aqueles que são considerados crucificados com Cristo.

Teoria da expiação compartilhada

O teólogo batista do sul David Jeremiah escreve que na teoria da "expiação compartilhada" a expiação é mencionada como sendo compartilhada por todos. Ou seja, Deus sustenta o Universo. Portanto, se Jesus era Deus em forma humana, quando ele morreu, toda a humanidade morreu com ele, e quando ele ressuscitou dos mortos, toda a humanidade ressuscitou com ele.

Compatibilidade de diferentes teorias

Alguns teólogos afirmam que "as diferenres interpretações bíblicas da expiação não precisam necessariamente entrar em conflito". O teólogo reformado J.I. Packer, por exemplo, embora defenda que "a substituição penal é a visão histórica predominante da igreja e o significado essencial da Expiação... Contudo, com a substituição penal no centro", ele também sustenta que "Christus Victor e outras visões bíblicas da expiação podem trabalhar juntas para apresentar um quadro completo da obra de Cristo". J. Kenneth Grider, falando de uma perspectiva da visão governamental da expiação, afirma que a teoria governamental pode incorporar em si "inúmeras compreensões promovidas nas outras teorias da expiação", incluindo a teoria do resgate, elementos da "teoria da 'influência moral' de Abelardo", aspectos substitucionários da expiação, etc.

O teólogo anglicano Oliver Chase Quick descreve as diversas teorias como sendo valiosas, mas, ao mesmo tempo, nega que qualquer teoria em particular seja totalmente verdadeira, dizendo: “se partirmos do pensamento fundamental e cardinal do ato de amor de Deus em Jesus Cristo [...] penso que podemos chegar a um ponto de vista reconciliador, a partir do qual cada tipo de teoria é visto como dando a sua contribuição essencial para a verdade, embora nenhuma teoria, ou conjunto do de teorias, possa ser suficiente para expressar a sua plenitude.”

Outros estudiosos observam que alguns modelos de expiação se excluem naturalmente. James F. McGrath, por exemplo, ao falar sobre a expiação, diz que "prefere usar a linguagem da participação. Um morreu por todos, logo todos morreram (2 Coríntios 5:14). Isso não só é diferente da substituição, como é o oposto dela." Da mesma maneira, Mark M. Mattison, em seu artigo "O Significado da Expiação", afirma: "A substituição implica um 'ou/ou'; a participação implica um 'ambos/e'." J. Kenneth Grider, citado acima, mostrando a compatibilidade de vários modelos de expiação com a teoria governamental, também afirma que tanto a teoria da substituição penal quanto a teoria da satisfação são incompatíveis com a teoria governamental.

Em sua obra Cristianismo Puro e Simples, o autor anglicano C.S. Lewis comenta que nenhuma das várias teorias deveria ser considerada Cristianismo. "A crença central do cristianismol" defende ele, "é que a morte de Cristo de alguma forma nos colocou em ordem com Deus e nos permitiu ter um novo começo. Teorias sobre como isso foi feito são outra história. Diversas teorias já foram formuladas sobre como isso funciona; mas se há algo com que todos os cristãos concordam é que funcionou."

Confusão de termos

Alguma confusão pode ocorrer na discussão sobre a expiação, uma vez que os termos usados às vezes têm significados diferentes, dependendo dos contextos em que são usados. Por exemplo:

  • Às vezes, a expiação substitucionária é usada para se referir apenas à substituição penal, quando o termo também tem um sentido mais amplo, incluindo outros modelos de expiação que não são penais.
  • A substituição penal também é às vezes descrita como um tipo de expiação por satisfação, mas o termo 'expiação por satisfação' funciona, principalmente, como um termo técnico para se referir à teoria de Anselmo em particular.
  • Temas substitutivos e penais são encontrados na literatura patrística (e posterior), mas não são usados em um sentido substitutivo penal até o período da Reforma.
  • 'Substituição', além de potencialmente se referir a teorias específicas da expiação (por exemplo, substituição penal), também é às vezes usado de uma maneira menos técnica - por exemplo, quando usado no 'sentido de que [Jesus, por meio de sua morte,] fez por nós o que nunca poderíamos fazer por nós mesmos'.
  • A expressão “expiação vicária” é por vezes usada como sinônimo de substituição penal e também é usada para descrever outras teorias de expiação substitutiva não penal. É preciso ter cuidado para entender a que se refere o significado dos vários termos usados em diferentes contextos.

Cristianismo Oriental

Segundo a teologia cristã oriental, baseada em sua compreensão da expiação conforme apresentada pela teoria da recapitulação de Irineu, a morte de Jesus é um resgate. Ela restaura a relação do homem com Deus, que é amoroso e se aproxima da humanidade, e oferece a possibilidade da teose ou divinização, tornando-nos o tipo de pessoas que Deus deseja que sejamos. A salvação é vista como a participação na renovação da própria natureza humana por meio da Palavra eterna de Deus, que assume a natureza humana em sua plenitude.

Em contraste com os ramos ocidentais da teologia, os cristãos ortodoxos orientais tendem a usar a palavra "expiação" em relação ao que é alcançado no ato sacrificial. Na teologia ortodoxa, expiação é um ato de oferta que busca transformar aquele que a oferece. A palavra grega bíblica que é traduzida tanto como "propiciação" quanto como "expiação" é hilasmos (1 João 2:2, 4:10), que significa "tornar aceitável e permitir que alguém se aproxime de Deus". Assim, a ênfase ortodoxa oriental seria que Cristo morreu não para apaziguar um Pai irado e vingativo ou para evitar a ira de Deus sobre os pecadores, mas para derrotar e assegurar a destruição do pecado e da morte, para que aqueles que estão caídos e em cativeiro espiritual possam ser divinamente transformados e, portanto, plenamente humanos, como seu Criador pretendia; isto é, as criaturas humanas se tornam Deus em suas energias ou operações, mas não em sua essência ou identidade, conformando-se à imagem de Cristo e readquirindo a semelhança divina (ver teose). Ensina ainda que uma pessoa permanece em Cristo e garante a sua salvação não apenas por meio de obras de amor, mas também por meio de seu sofrimento paciente de várias dores, doenças, infortúnios e fracassos.

A visão ortodoxa oriental é em grande parte semelhante à visão ortodoxa grega, mas difere em relação a certas doutrinas defendidas por Gregório Palamas no século XIII. No palamismo, o homem torna-se "incriado, sem origem e indescritível" na teose, um conceito rejeitado pelas Igrejas Ortodoxas Orientais, onde o homem é deificado na medida permitida pela natureza humana. Neste paradigma, o homem não se torna plenamente divino e igual à Divindade em atributos, mas aproxima-se perpetuamente dela, sem nunca se tornar consubstancial a Deus Pai.

Catolicismo

A Igreja Católica ensina que a morte de Jesus na Cruz é um sacrifício que redime o homem e o reconcilia com Deus. O sacrifício de Jesus é tanto uma "dádiva da parte do próprio Deus Pai, pois o Pai entregou seu Filho aos pecadores para nos reconciliar consigo mesmo" quanto "a oferta do Filho de Deus feito homem, que em liberdade e amor ofereceu sua própria vida ao Pai pelo Espírito Santo em reparação pela nossa desobediência".

Os teólogos católicos frequentemente explicam a salvação dividindo-a em dois aspectos: a justificação — que se relaciona com a fé e como a justiça divina é satisfeita — e a santificação — que se relaciona com a caridade e com a nossa capacidade de felicidade na visão beatífica, alguns teólogos enfatizando mais do que outros a sua interligação. A teologia católica também afirma que a salvação é comunitária: a salvação de qualquer indivíduo é “inseparável da salvação dos outros”.

Um uso diferente é a "salvação do Purgatório" (isto é, relacionado à santificação) em vez de salvação do pecado e da punição (ou seja, relacionado à justificação): este uso é mais raro, mas exemplos são encontrados entre católicos, protestantes, e acadêmicos.

Definição tridentina

A visão católica da obra redentora de Cristo foi formalmente definida na Sexta Sessão do Concílio de Trento, em 13 de janeiro de 1547. O concílio afirmou que Jesus mereceu a graça da justificação, que não é apenas a remissão dos pecados, mas também a infusão das virtudes da fé, da esperança e da caridade no cristão. Sendo assim, um cristão justificado está em estado de graça, estado este que pode ser perdido pela prática de um pecado mortal, entrando em estado de pecado.

A visão que prevaleceu no Concílio de Trento foi descrita como uma "combinação das opiniões de Anselmo e de Abelardo". Os estudiosos católicos têm observado que Abelardo não ensinou que Jesus era simplesmente um bom exemplo moral, mas que os cristãos são salvos verdadeiramente por seu sacrifício na Cruz.

A transformação moral do cristão não é o resultado de meramente seguir o exemplo e os ensinamentos de Cristo, mas é um dom sobrenatural merecido pelo sacrifício de Jesus, pois "pela obediência de um, muitos serão feitos justos".

Cooperação com a Graça divina

Embora a graça inicial da justificação seja merecida unicamente pelo sacrifício de Jesus, a Igreja Católica ensina que um cristão justificado pode obter um "crescimento" em sua justificação e a obtenção da vida eterna pela cooperação com a graça de Deus. A graça da perseverança final preserva um cristão justificado no estado de graça até a sua morte.

O modo prático da salvação é exposto por Santo Afonso de Ligório, um Doutor da Igreja:

"...para alcançar o Céu, é necessário trilhar o caminho reto que conduz à bem-aventurança eterna. Este caminho é a observância dos mandamentos divinos. Por isso, em sua pregação, o Batista exclamou: 'Endireitai o caminho do Senhor'. Para podermos caminhar sempre no caminho do Senhor, sem nos desviarmos nem para a direita nem para a esquerda, é necessário adotar os meios adequados. Esses meios são, em primeiro lugar, a modéstia em nós mesmos; em segundo lugar, a confiança em Deus; em terceiro lugar, a resistência às tentações."

— Sermões Para Todos os Domingos do Ano. Sermão III. Terceiro Domingo do Advento: Sobre os meios necessários para a salvação

O Papa Leão XIII distinguiu entre Redenção objetiva e subjetiva.

 

Portanto, não podemos duvidar de que ela [Maria] tenha sofrido profundamente na alma com as mais duras angústias e tormentos de seu Filho. Além disso, o sacrifício divino teve que ser consumado com a sua presença e observando, para o que ela generosamente alimentou a vítima... Ali estava junto à Cruz de Jesus, Maria, sua Mãe... por sua própria vontade, ela ofereceu seu Filho à justiça divina, morrendo com ele em seu coração, transpassada pela espada da dor.

Divinização

A Igreja Católica compartilha da crença cristã oriental na divinização, ensinando que "o Filho de Deus tornou-se homem para que nós pudéssemos nos tornar Deus". No entanto, em contraste com a noção ortodoxa oriental de teose, na qual o cristão divinizado se torna Deus em suas energias ou operações, a Igreja Católica ensina que o fim último da divinização é a visão beatífica, na qual o cristão divinizado verá a essência de Deus.

Destino dos mortos

A Igreja Católica não crê no universalismo cristão (isto é, que todas ou que a maioria das pessoas vão para o céu), na dupla predestinação (isto é, que algumas, a maioria ou todas as pessoas estão destinadas ao pecado e ao inferno), no feeneyismo (isto é, que não-católicos e católicos excomungados não podem ser salvos), nem em quantas pessoas irão para o céu ou para o inferno (seja a maioria, poucas ou algumas pessoas). Mas a Igreja afirma que morrer em estado de impenitência final — que é recusar-se a arrepender-se do pecado no momento da morte, cuja consequência é a punição eterna — leva ao inferno. A Igreja também afirma que morrer em estado de perfeição (sem pecado e sem castigo) leva ao céu, enquanto morrer em estado de pecado original (que não é pecado, mas sim a falta da graça santificante) ou de pecado contrito (seja mortal ou venial) leva ao purgatório — a menos que a alma pecadora não batizada receba o batismo, ou a alma pecadora batizada receba a unção dos enfermos e o Perdão Apostólico, caso em que a alma vai para o céu.

Destino dos mortos no catolicismo
Se uma pessoa morrer Então, ela irá para o Durante um período de
1. Em impenitência final (pecado mortal) Inferno Eternidade
2. Apenas o pecado original Inferno Limbo
3. Em pecado venial Purgatório Temporário antes de ir para o céu
4. Sem pecado, mas com consequências temporais do pecado Purgatório Temporário antes de ir para o céu
5. Nenhum pecado e nenhuma consequência temporal do pecado. Céu Eternidade

Destino do Universo

A salvação, na teologia católica, é pretendida para toda a criação, não apenas a anjos e homens. A salvação do Universo — isto é, a libertação do mal e a plenitude de todas as coisas boas — ocorrerá no final dos tempos, pois o Universo está incondicionalmente predestinado à deificação no Juízo Final. Apenas a predestinação dos humanos e dos anjos à deificação é condicionada, e isso ao comportamento moral, devido ao seu livre-arbítrio. Pela deificação, toda a criação (exceto os demônios e os condenados) será perfeita e feliz além da compreensão pois tudo participará da perfeição e da felicidade de Deus. Essa deificação não pode ser obtida, experimentada ou antecipada antes do Juízo Final, porque não há nada no Universo que seja infinitamente e sobrenaturalmente perfeito e feliz — apenas finitamente e naturalmente perfeito ou feliz. Contudo, o batismo concede um antegosto da vida eterna, que é o início da deificação e uma promessa da futura salvação do Universo, através da graça santificante. A vida eterna no céu implica a deificação da alma e, por meio da ressurreição universal que ocorrerá no Juízo Final, a alma deificada será reunida permanentemente ao seu corpo, que também será deificado. Enquanto a alma deificada no céu experimenta a visão beatífica com todo o seu ser (personalidade, imaginação, intelecto, vontade, consciência, razão, virtude, autoimagem, relacionamento com os outros, etc.), o corpo deificado também experimentará a visão beatífica com todo o seu ser (todos os cinco sentidos, vida, atividade, presença, movimento, aparência, talentos, vestimenta, necessidades, etc.), de modo que a pessoa inteira — corpo e alma — será salva, isto é, deificada e experimentará a visão beatífica. Como parte de sua deificação, o corpo deificado será como o próprio corpo ressuscitado e deificado de Jesus, o que significa ser dotado de impassibilidade (imunidade ao mal, incluindo tentação, pecado, demônios, inconvenientes, erros, tédio, medo, sofrimento e morte), liberdade da restrição do espaço-tempo (o que significa que o santo pode mudar de forma, viajar no tempo, controlar a natureza, teletransportar-se e ter sentidos e proezas sobre-humanas), agilidade (obediência à alma, assim como a alma é obediente a Deus) e (beleza resplandecente. Com o Juízo Final, os demônios não poderão mais ter ação fora do inferno (como tentação e possessão), o Universo se tornará imune ao mal, o mal não será mais possível e o Universo será infinitamente melhor do que o paraíso mais idílico concebível.

Protestantismo

Visões protestantes sobre a salvação
Esta tabela resume os ensinos de três visões protestantes clássicas sobre a salvação.
Topic Calvinismo Luteranismo Arminianismo
Vontade humana Depravação total: Humanidade possui "livre arbítrio", mas ele está escravizado pelo pecado, até que seja "transformado". Depravação total: A humanidade possui livre-arbítrio em relação a "bens e posses", mas é pecadora por natureza e incapaz de contribuir para a sua própria salvação. Depravação total: A humanidade possui liberdade de determinação, mas não "liberdade do pecado", a menos que seja possibilitada pela graça preveniente.
Eleição Eleição incondicional. Eleição incondicional. Eleição condicional em virtude da fé ou da incredulidade prevista.
Justificação e expiação Justificação pela fé somente. Diversas visões sobre a extensão da expiação. Justificação para todos os homens, completada na morte de Cristo e eficaz somente pela fé. Justificação feita possível para todos através da morte de Cristo, mas completada somente ao crer em Jesus.
Conversão Monergista, por meio da graça irresistível. Monergista, através dos meios da graça, resistível. Sinergista, resistível devido à graça comum do livre-arbítrio.
Perseverança e apostasia Perseverança dos santos: aqueles eternamente eleitos em Cristo certamente perseverarão na fé. O Espírito Santo fortalece a fé do crente através da proclamação da Palavra e da participação nos sacramentos; cair da graça é possível pela perda da fé ou por pecado mortal. A preservação é is condicional à fé contínua em Cristo; com a possibilidade de apostasiay final.


No protestantismo, a graça justificadora é resultado da iniciativa de Deus, sem qualquer consideração por quem inicia as obras, e ninguém consegue merecer a graça justificadora de Deus por meio de rituais, boas obras, ascetismo ou meditação. De modo geral, os protestantes aderem aos cinco solas da Reforma, que declaram que a justificação é alcançada somente pela graça, somente em Cristo, somente pela fé, somente para a glória de Deus, como descrito somente nas Escrituras. Os protestantes magisteriais, como os luteranos, anglicanos e reformados, creem que a justificação é alcançada somente pela graça de Deus e, uma vez assegurada a justificação na pessoa, as boas obras serão uma consequência disso, permitindo que as boas obras frequentemente operem como um significante para a salvação (cf. santificação). < Estes protestantes entendem isso como significando que Deus justifica unicamente pela graça e que as obras se seguem como uma consequência necessária da graça justificadora. O luteranismo sustenta que a salvação pode ser perdida com a perda da fé ou por um pecado mortal, em contraste com a tradição reformada, que defende que os crentes, uma vez salvos, perseverarão até o fim. Outros, como os metodistas (e outros arminianos), acreditam que a justificação é somente pela fé, mas que a salvação pode ser perdida se não for acompanhada de fé contínua,de obediência e das obras que naturalmente dela decorrem. A teologia anabatista defende uma "fé que opera" como sendo salvífica. Aqueles que aderem à teologia da Livre Graça, incluindo alguns batistas independentes, acreditam firmemente que a salvação é alcançada somente pela fé, sem qualquer referência a obras, incluindo as obras que podem seguir a salvação.

Luteranismo

Os luteranos acreditam que Cristo, através da sua morte e ressurreição, obteve justificação e expiação para todos os pecadores. As igrejas luteranas acreditam que esta é a mensagem central da Bíblia, da qual depende a própria existência das igrejas. No luteranismo, é uma mensagem relevante para pessoas de todas as raças e classes sociais, de todos os tempos e em todos os lugares, pois "por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens" (Romanos 5:18). Todos precisam do perdão dos pecados diante de Deus, e a Escritura proclama que todos foram justificados, pois "por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida." (Romanos 5:18).

O luteranismo ensina que os indivíduos recebem este dom gratuito do perdão e da justificação não com base nas suas próprias obras, mas apenas através da fé (Sola fide):

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie

— Efésios 2:8,9

  A fé salvífica é o conhecimento, a aceitação, e a confiança na promessa do Evangelho. A própria fé é vista como um dom de Deus, criado nos corações dos cristãos pela obra do Espírito Santo através da Palavra de Deus e do Batismo. A fé é entendida como um instrumento que recebe a dádiva da salvação, e não como a causa dela. Desse modo, os luteranos rejeitam a "teologia da decisão", comum entre os evangélicos modernos, como os batistas e os metodistas.

Na visão luterana, no momento da justificação de um indivíduo, se inicia o processo de santificação, definido como "a obra do Espírito Santo que se segue à justificação pela fé e consiste em renovar o crente e produzir nele obras de renovação". No luteranismo, a santificação tem dois componentes: a renovação interior do Espírito Santo no cristão e a vivência dessa renovação interior na nova vida de boas obras do cristão". No processo de santificação, os seres humanos cooperam com Deus, capacitados pela graça preveniente, "pois ao Espírito Santo é atribuído o crédito pela nossa fé e pela entrega da nossa vontade a Deus (Romanos 3:21-28; Gálatas 3:10-14; Obras de Lutero, vol. 26, p. 106; Pequeno Catecismo, II.6)". A Fórmula de Concórdia ensina: “Mas o intelecto e a vontade do homem não regenerado nada mais são do que subiectum convertendum, isto é, aquilo que deve ser convertido, sendo o intelecto e a vontade de um homem espiritualmente morto, em quem o Espírito Santo opera conversão e renovação, para cuja obra a vontade do homem que deve ser convertido nada faz, mas permite que somente Deus opere nele, até que ele seja regenerado; e então ele também opera com o Espírito Santo [coopera] naquilo que é agradável a Deus em outras boas obras que se seguem, da maneira e na medida plenamente descritas acima” (SD II.90). As Confissões Luteranas sustentam que é “necessário exortar as pessoas à disciplina cristã e às boas obras, e lembrá-las do quanto é necessário que se exercitem em boas palavras como evidência de sua fé e de sua gratidão para com Deus”. Para os cristãos, “as boas obras são frutos necessários da fé na vida de um cristão, e procedem de um coração renovado, grato a Deus por sua misericórdia e amor”. Essas boas obras feitas pelos cristãos são recompensadas por Deus, com “cada um recebendo o seu galadão conforme o seu trabalho”. Aqueles que cometem pecado mortal “se sujeitam à ira divina e à morte eterna, a menos que, convertidos, se reconciliem com Deus por meio da fé”.

Teologia Reformada

Os cristãos reformados (reformados continentais, presbiterianos, anglicanos reformados e congregacionalistas) acreditam na predestinação dos eleitos antes da fundação do mundo. Todos os eleitos necessariamente perseveram na fé, pois Deus os impede de se desviarem. Os calvinistas entendem que as doutrinas da salvação incluem os cinco pontos do calvinismo, geralmente organizados em inglês para formar o acróstico "TULIP".

  • Depravação total: também chamada de "incapacidade total", afirma que, como consequência da queda do homem, toda pessoa nascida no mundo é escravizada ao serviço do pecado. As pessoas não são, por natureza, inclinadas a amar a Deus com todo o seu coração, mente ou força, mas sim inclinadas a servir aos seus próprios interesses em detrimento dos do próximo e a rejeitar o domínio de Deus. Assim, todas as pessoas, por suas próprias faculdades, são moralmente incapazes de escolher seguir a Deus e serem salvas porque não estão dispostas a fazê-lo por conta de sua própria natureza. (O termo "total", neste contexto, refere-se ao pecado que afeta todas as partes de uma pessoa, e não que toda pessoa seja tão má quanto possível.) Esta doutrina deriva da explicação de Agostinho sobre o Pecado Original.
  • Eleição incondicional: afirma que Deus escolheu desde a eternidade aqueles que Ele trará para Si, não com base em virtude, mérito ou fé previsíveis nessas pessoas; em vez disso, está fundamentada unicamente na misericórdia de Deus de modo incondicional. Deus escolheu desde a eternidade estender misericórdia àqueles que Ele escolheu, e negar misericórdia àqueles que não foram escolhidos. Os escolhidos recebem justificação somente por meio de Cristo. Os que não são escolhidos recebem a justa ira que lhes é devida por seus pecados contra Deus.
  • Expiação limitada: também chamada de "redenção particular", afirma que a expiação vicária de Jesus foi definida e certa em seu propósito e em seu resultado. Isso implica que apenas os pecados dos eleitos foram expiados pela morte de Jesus. Os calvinistas, contudo, não acreditam que a expiação seja limitada em seu valor ou poder, mas sim que ela é limitada no sentido de que foi planejada apenas para alguns e não para todos. Portanto, os calvinistas sustentam que a expiação é suficiente para todos e eficaz para os eleitos. A doutrina é impulsionada pelo conceito calvinista da soberania de Deus na salvação e por sua compreensão da natureza da expiação.
  • Graça irresistível: também chamada de "graça eficaz", afirma que a graça salvadora de Deus é aplicada eficazmente àqueles que Ele determinou salvar (isto é, os eleitos) e, no tempo de Deus, vence a resistência deles em obedecer ao chamado do evangelho, levando-os a uma fé salvadora. Isso significa que, quando Deus, em Sua soberania, decide salvar alguém, essa pessoa certamente será salva. A doutrina sustenta que essa influência intencional do Espírito Santo de Deus não pode ser resistida, mas que o Espírito Santo "graciosamente faz com que o pecador eleito coopere, creia, se arrependa e venha livre e voluntariamente a Cristo".
  • Perseverança dos santos: afirma que, como Deus é soberano, e a sua vontade não pode ser frustrada pelos humanos ou por qualquer outra coisa, aqueles a quem Deus chamou para a comunhão consigo permanecerão na fé até ao fim. Aqueles que aparentemente se afastam, ou nunca tiveram verdadeira fé desde o princípio ou irão regressar. A palavra “santos” é usada para se referir a todos os que são separados por Deus, e não apenas àqueles que são excecionalmente santos, canonizados ou que estão no céu.

Arminianismo

A soteriologia arminiana, adotada por algumas denominações, como os Batistas Gerais e o movimento Metodista, está embasada nas ideias do teólogo reformado holandês Jacó Armínio (1560-1609). Assim como os calvinistas, os arminianos concordam que todas as pessoas nascem pecadoras e carecem de salvação. O arminianismo clássico enfatiza que a livre graça de Deus (ou graça preveniente) permite que os seres humanos respondam ou rejeitem livremente a salvação oferecida por meio de Cristo. Os arminianos clássicos creem que o relacionamento salvífico de uma pessoa com Cristo é condicional à fé e, portanto, uma pessoa pode romper seu relacionamento salvífico com Cristo por meio da incredulidade persistente. O relacionamento do crente com Cristo nunca é um relacionamento estático, existente como consequência irrevogável de uma decisão, ato ou experiência passada.

Os Cinco Artigos da Remonstrância, formulados pelos seguidores de Armínio em 1610, declaram as crenças a respeito da eleição condicional, da expiação ilimitada, da depravação total, da graça resistível e da possibilidade de apostasia. No entanto, o quinto artigo não negava completamente a perseverança dos santos; Armínio afirmou em seus escritos que

"[...] nunca ensinei que um verdadeiro crente pode tanto cair totalmente distanciando-se da fé, e perecer, não vou esconder que há passagens das Escrituras que pareçam usar este aspecto; e, segundo o meu entendimento, há respostas para elas que me fora permitido ver, que não são tão boas a ponto de aprová-las em todos os pontos."

— Jacó Armínio, As Obras de Armínio, v. 1. X. Sobre a Perseverança dos Santos.

Além disso, o texto dos Artigos de Remonstrância afirma que nenhum crente pode ser arrancado da mão de Cristo, e a questão do afastamento da fé, ou "perda da salvação", exigia estudo adicional antes de poder ser ensinada com qualquer certeza.

Metodismo

O metodismo se enquadra perfeitamente na tradição da expiação substitucionária, embora esteja ligado também às teorias de Christus Victor e de influência moral. O metodismo também enfatiza uma natureza participativa na expiação, na qual o crente metodista morre espiritualmente com Cristo, assim como Ele morre pela humanidade.

O metodismo afirma a doutrina da justificação pela fé, mas na teologia wesleyana, justificação refere-se ao "perdão, à remissão dos pecados", em vez de "tornar-se de fato justo e reto", o que os metodistas acreditam ser alcançado através da santificação. John Wesley, o fundador das Igrejas Metodistas, ensinou que a observância da lei moral contida nos Dez Mandamentos, bem como o envolvimento em obras de piedade e obras de misericórdia, eram "indispensáveis para a nossa santificação".

A soteriologia metodista enfatiza a importância da busca pela santidade na salvação e da vida vitoriosa sobre o pecado, um conceito melhor resumido em uma citação da evangelista metodista Phoebe Palmer, que afirmou que "a justificação teria acabado comigo se eu tivesse me recusado a ser santa". Desse modo, para os metodistas, "a verdadeira fé... não pode subsistir sem as obras".

Embora “a fé seja essencial para um relacionamento significativo com Deus, nosso relacionamento com Deus também se molda por meio de nosso cuidado com as pessoas, com a comunidade e com a própria criação”. O metodismo, incluindo o movimento de santidade, ensina, portanto, que “a justificação é condicionada à obediência e ao progresso na santificação”, enfatizando “uma profunda dependência de Cristo não apenas para chegar à fé, mas também para permanecer na fé”.

Anabatismo

A teologia anabatista enfatiza uma "fé que opera". Os anabatistas ensinam que "a justificação [iniciou] um processo dinâmico pelo qual o crente participou da natureza de Cristo e foi assim capacitado a viver cada vez mais como Jesus."

As denominações anabatistas, como os menonitas, ensinam:

...que somos salvos pela graça mediante a fé. Mas continuamos dizendo que a verdadeira fé deve levar ao arrependimento e ao início de uma vida transformada. A salvação não se torna uma realidade plena até que nossa fé genuína se expresse em uma vida centrada em Cristo. Os menonitas tendem a concordar que a salvação não é meramente um relacionamento pessoal com Deus, mas um relacionamento comunitário uns com os outros. Experimentamos a salvação vivendo-a juntos.

A obediência a Jesus e a observância cuidadosa dos Dez Mandamentos, além do amor ao próximo e da paz com os outros, são vistos como “as marcas dos salvos”.

Pentecostalismo

Pentecostalismo Clássico

O Pentecostalismo Clássico sustenta que Deus concede a salvação através do Novo Nascimento e afirma que "Se uma pessoa andar conforme a Palavra de Deus, ela será guardada pelo poder de Deus". Aqueles que experimentam o Novo Nascimento devem buscar a segunda obra da graça, a santificação completa.

Pentecostalismo Unicista

Os pentecostais unicistas acreditam que a salvação é alcançada pela fé em Jesus Cristo. Segundo a sua teologia, essa fé salvadora é mais do que apenas concordância mental, aceitação intelectual ou profissão verbal, mas deve incluir obediência, demonstrada pelo arrependimento, batismo nas águas em nome de Jesus e o batismo no Espírito Santo com a evidência de falar em línguas.

Stone-Campbellismo

Igrejas de Cristo

As Igrejas de Cristo são fortemente anticalvinistas em sua compreensão da salvação, e geralmente apresentam a conversão como "obediência aos fatos proclamados do Evangelho, em vez de como resultado de uma conversão emocional iniciada pelo Espírito". Algumas Igrejas de Cristo sustentam a visão de que os humanos em idade de consciência estão perdidos por conta de seus pecados. Essas almas perdidas podem ser redimidas porque Jesus Cristo, o Filho de Deus, ofereceu-se como sacrifício expiatório. Acredita-se que as crianças muito jovens para entender o certo e o errado e fazer uma escolha consciente sejam inocentes do pecado. Acredita-se que a idade em que isso ocorre seja geralmente em torno de 13 anos.

A partir da década de 1960, muitos pregadores começaram a dar mais ênfase ao papel da graça na salvação, em vez de se concentrarem exclusivamente na implementação de todos os mandamentos e exemplos do Novo Testamento.

As Igrejas de Cristo argumentam que, como a fé e o arrependimento são necessários, e que a purificação dos pecados se dá pelo sangue de Cristo através da graça de Deus, o batismo não é um ritual inerentemente redentor. Um autor descreve a relação entre fé e batismo desta forma: “ A fé é a razão pela qual uma pessoa é filha de Deus; o batismo é o momento em que ela é incorporada a Cristo e, assim, se torna filha de Deus” (itálico na fonte). O batismo é entendido como uma expressão confessional de fé e arrependimento, e não como uma “obra” que garante a salvação.

Teologia da Livre Graça

Os defensores da Teologia da Graça Livre acreditam que as pessoas usam seu livre-arbítrio para receber justiça imputada e vida eterna no Céu, simplesmente pela Graça, mediante a fé somente no Senhor Jesus Cristo. Uma vez salvo, o indivíduo será salvo para sempre, uma vez que Deus lhe prometeu a vida eterna no momento em que creu Nele. É importante notar que eles não acreditam que uma pessoa seja salva por boas obras, nem ensinam que as boas obras seguiriam automaticamente a salvação como qualquer tipo de evidência. Após a salvação, o cristão é instruído a pregar o evangelho de Jesus Cristo aos perdidos e a viver uma vida boa como um bom testemunho de Jesus Cristo e para agradar a Deus Pai. A crença aqui é que praticar boas obras renderá ao crente tesouros celestiais e bênçãos terrenas, enquanto cometer pecados e más obras causará punições terrenas de Deus, castigo de um Pai amoroso para com Seus filhos na fé. Vale ressaltar que eles acreditam que uma pessoa não pode perder sua salvação em nenhum momento.

Universalismo

O universalismo cristão é ao ensino ou crença de que todas as pessoas serão, em última análise, reconciliadas com Deus. O apelo da ideia de salvação universal pode estar relacionado à percepção de um problema do Inferno, opondo-se a ideias como o tormento consciente sem fim no Inferno, mas também pode incluir um período de punição finita semelhante a um estado de purgatório. Os defensores da reconciliação universal podem apoiar a visão de que, embora possa haver um "Inferno" real de algum tipo, não é um lugar de sofrimento eterno nem um lugar onde os espíritos dos seres humanos são, em última análise, "aniquilados" após receberem a justa quantidade de retribuição divina.

Restauracionismo

A Nova Igreja (Swedenborgianismo)

De acordo com a doutrina da Nova Igreja, conforme explicada por Emanuel Swedenborg (1688–1772), não existe expiação substituicionária como geralmente se entende. A concepção de expiação de Swedenborg tem muito em comum com a visão do Christus Victor, que se refere a uma compreensão cristã da Expiação que considera a morte de Cristo como o meio pelo qual os poderes do mal, que mantinham a humanidade sob seu domínio, foram derrotados. É um modelo de expiação que remonta aos Pais da Igreja, e, juntamente com a teoria do resgate, foi a teoria dominante da expiação por um milênio.

Testemunhas de Jeová

Segundo as Testemunhas de Jeová, a expiação dos pecados só vem através da vida, ministério e morte de Jesus Cristo. Elas acreditam que Jesus foi o "segundo Adão", sendo o Filho de Deus preexistente e sem pecado que se tornou o Messias humano de Israel, e que ele veio para desfazer o pecado adâmico.

As Testemunhas de Jeová creem que a sentença de morte dada a Adão e, posteriormente, à sua descendência por Deus, exigiu um sacrifício substituto ou resgate equivalente de um homem perfeito. Elas acreditam que a salvação só é possível por meio do sacrifício de resgate de Jesus e que os indivíduos não podem ser reconciliados com Deus até que se arrependam de seus pecados e, então, invoquem o nome de Deus por meio de Jesus. A salvação é descrita como um dom gratuito de Deus, mas é considerada inatingível sem a obediência a Cristo como Rei e boas obras, como o batismo, a confissão dos pecados, a evangelização e a propagação do Reino de Deus, que são motivadas pela fé. De acordo com o seu ensinamento, as obras comprovam a autenticidade da fé. A "pregação das boas novas" é considerada uma das obras necessárias para a salvação, tanto daqueles que pregam quanto daqueles a quem pregam. Eles acreditam que as pessoas nos “últimos dias” podem ser “salvas” identificando as Testemunhas de Jeová como a organização teocrática de Deus e servindo a Deus como parte dela.

Santos dos Últimos Dias

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias ensina que a Expiação de Jesus Cristo é infinita e o princípio central que possibilita o "plano de redenção", também chamado de "plano de salvação". No Livro de Mórmon, o profeta Amulek ensina que "o grande e último sacrifício será o Filho de Deus, sim, infinito e eterno. E assim ele trará salvação a todos os que crerem em seu nome" A salvação tem duas partes: condicional e incondicional. A salvação incondicional significa que a Expiação de Jesus Cristo redime toda a humanidade das correntes da morte e ela ressuscita para sua forma perfeita. A salvação condicional dos justos vem pela graça, aliada à estrita obediência aos princípios do Evangelho, na qual aqueles que mantiveram os mais altos padrões e se comprometeram com os convênios e ordenanças de Deus herdarão o mais alto céu. Não há necessidade de batismo infantil. A expiação de Cristo resolveu completamente a consequência da queda de Adão, a morte espiritual para bebês, crianças pequenas e aqueles com capacidade mental inocente que morrem antes da idade da auto-prestação de contas; portanto, todos esses são ressuscitados para a vida eterna na ressurreição. No entanto, o batismo é exigido daqueles que são considerados por Deus responsáveis por suas ações (Morôni 8:10–22).

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