Manuel José de Araújo Porto-Alegre, primeiro e único barão de Santo Ângelo (Rio Pardo, 29 de novembro de 1806 – Lisboa, 30 de dezembro de 1879), foi um escritor, político, jornalista, pintor, caricaturista, arquiteto, crítico e historiador de arte, professor e diplomata brasileiro.
Um dos mais expressivos e versáteis intelectuais brasileiros dos meados do século XIX, viu-se colocado entre a memória da colônia e a emergência do império independente, e dividido entre o débito cultural para com a Europa e a necessidade de cultivar a brasilidade. No plano estético, tendo recebido uma formação neoclássica, abriu-se para outras influências e se tornou um dos primeiros românticos brasileiros. Compartilhou dos pensamentos e anseios de um influente grupo de intelectuais e políticos agregados em torno do imperador e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que estavam redesenhando o projeto da nação e concebendo meios de fazê-la progredir. Neste projeto, a reinterpretação da história nacional e o cultivo das artes e ofícios teriam um papel de relevo.
Porto-Alegre transitou nos mais altos escalões e foi uma figura ativa nessa evolução política, cultural e institucional como teórico, articulista, organizador, administrador, pesquisador e professor. Discípulo favorito de Debret (um dos principais membros da Missão Artística Francesa), foi uma das figuras centrais na conceituação e estabilização do sistema de ensino artístico acadêmico, sendo professor e diretor da Academia Imperial de Belas Artes. Em sua produção destaca-se sua volumosa obra escrita, contemplando vários campos, incluindo literatura, filosofia, história, teologia, linguística, arqueologia e belas artes. Também deixou um pequeno legado em pintura e projetou alguns edifícios.
Biografia




Era filho do comerciante Francisco José de Araújo e de Francisca Antônia Viana. Seu nome de batismo era Manuel José de Araújo, modificado para Pitangueira por espírito nativista, quando da Independência e, mais tarde, chegando à forma definitiva: Manuel de Araújo Porto-Alegre. Perdeu o pai com cinco anos, e sua mãe casou com o comerciante Antônio José Teixeira de Macedo, que providenciou a primeira educação do menino. Aprendeu latim, francês, filosofia, geometria e álgebra. Começou a trabalhar como ourives, onde logo se destacou pelo seu refinado gosto artístico.
Porto-Alegre estudou pintura inicialmente com o francês François Thér e com os cenógrafos Manuel José Gentil e João de Deus. Mudou para o Rio de Janeiro em janeiro de 1827, para matricular-se na Real Academia Militar. Estando, porém, a escola fechada, em férias, e como tinha noções de pintura e desenho, matricula-se na Academia Imperial de Belas Artes, na qual foi aluno de Jean Baptiste Debret. Estudou filosofia com o padre Francisco José Policarpo, anatomia e a fisiologia com o Dr. Cláudio Luís da Costa, e dissecou no Hospital de Santa Clara para o estudo do corpo humano. Em 1830 recebeu prêmios em pintura, arquitetura e escultura no primeiro Salão oficial da Academia. Um retrato que havia feito do imperador causou tão boa impressão que Porto-Alegre foi requisitado para retratar todos o membros da família imperial, mas a encomenda foi abortada pela abdicação de D. Pedro em abril de 1831.
Em 25 de julho de 1831, graças a uma subscrição de Evaristo da Veiga, do senador Soledade e outros amigos, Porto-Alegre viajou para Paris, em companhia de seu mestre Debret, que deixava definitivamente o Brasil. Na Europa, estudou na Escola de Belas Artes de Paris. Foi aluno de Antoine-Jean Gros em pintura histórica e de François Debret em arquitetura. Em 1833 obteve a 3ª Medalha no Salão da Escola, mas passou privações quando seu principal financiador quebrou, tendo que deixar a aula de Gros e as lições de modelo vivo. Foi socorrido pelo Conselheiro Rocha com uma pensão de cento e quarenta francos mensais. Amigo de François Debret, irmão de seu mestre, manteve contatos com seu círculo, onde estavam figuras como Rossini, Auber, Cherubini e Almeida Garrett.
Chegando a Paris seu amigo Luís de Vasconcelos, recebeu dele uma oferta de vinte mil francos para acabar os seus estudos na Itália, mas só aceitou quatro mil, pois o Conselheiro Rocha lhe providenciou casa e comida em Roma. Partiu em 4 de outubro de 1834, junto com seu amigo, o poeta Gonçalves de Magalhães. Na Itália visitou muitas cidades e estudou com o antiquário Antonio Nibby. Viajou para a Inglaterra, Países Baixos e Bélgica com Gonçalves de Magalhães. Voltou para o Rio de Janeiro em maio de 1837 depois de saber da Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul. Mandou buscar sua mãe e se estabeleceu. No ano seguinte, em 14 de outubro de 1838, casou-se com Ana Paulina Delamare. Passou a desenvolver atividades variadas como professor de desenho, poeta, crítico e historiador de arte, área na qual é considerado como fundador da disciplina no Brasil. Foi professor de pintura histórica na Academia Imperial de 1837 a 1848.
Em 1840 foi nomeado pintor da Câmara Imperial e foi responsável pelos trabalhos de decoração para a coroação do imperador D. Pedro II e seu casamento com D. Teresa Cristina. De 1848 a 1858 lecionou arquitetura na Academia Militar. Como arquiteto executou diversos projetos no Rio de Janeiro, dos quais destacam-se intervenções no Paço Imperial e na Alfândega, e projetos para o Banco do Brasil, a Escola de Medicina, um teatro no Rio, um mercado em Niterói, e a Capela de Nossa Senhora das Neves, além de levantar a planta da cidade do Rio.
Foi vereador no Rio de Janeiro, destacando-se em seu mandato a proposta de criação de escolas industriais para a educação de operários. Estava entre os fundadores do Conservatório Dramático e da Academia de Ópera Lírica, foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e diretor da Academia Imperial de Belas Artes em 1854. Como diretor da Academia promoveu a ampliação da área construída, anexando o Conservatório de Música e a Pinacoteca, além de estabelecer uma série de reformas no seu currículo e seus métodos de ensino. Sua atuação não foi pacífica, encontrando muitas resistências e sendo prejudicado pela carência de recursos.
Ressentido com os atritos em que se envolvera no campo das artes, em 1857 renunciou à direção da Academia e no ano seguinte à cadeira na Academia Militar, iniciando sua carreira diplomática, primeiramente na Prússia, em Berlim (1859), depois em Dresden (1860), onde preparou a edição de Brasilianas, e Lisboa, onde chegou em 1866, sendo nomeado cônsul geral em 1867. Sua atividade diplomática contribuiu para que o Brasil criasse na Europa a imagem de um país dirigido por homens cultos e interessados em seu desenvolvimento. Para Antonio Alexandre Bispo, Porto-Alegre "foi um dos grandes nomes no contexto da história do Império na Europa". Em 1867 participou da organização da seção brasileira na Exposição Universal de Paris, e em 1871 recebeu D. Pedro em Lisboa.
Em 1873 fez uma breve visita ao Brasil e secretariou a delegação brasileira na Exposição Universal de Viena. Em 1874, por seus serviços ao Império, foi agraciado por D. Pedro II com o título nobiliárquico de barão de Santo Ângelo. O seu brasão utiliza as mesmas armas do ramo nobre português da família Araújo, da qual Porto-Alegre descendia. Todos os descendentes do barão de Santo Ângelo não utilizam mais o sobrenome Araújo, vindo a adotar Porto-Alegre como sobrenome.
Em 1877, estando em viagem de Roma para Florença, teve um ataque de "congestão cerebral". Recolhido a Lisboa, pouco depois teve o segundo, ficando paralítico do lado direito e perdendo a fala, que nunca recuperou. Faleceu em 30 de dezembro de 1879.
Em 1865, exercendo função diplomática em Dresden, escreveu uma carta a seu amigo Joaquim Manuel de Macedo, que era professor dos filhos da princesa Isabel de Bragança, na qual ele se declara espírita e fala de suas psicografias recebidas do Plano Espiritual, revelando que a princesa Isabel, católica, lhe perguntou "quem é meu espírito protetor?". A carta se encontra arquivada no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, e contém 12 páginas manuscritas, correspondência esta que foi publicada na íntegra, com análise circunstanciada, no livro Barão de Santo Ângelo, O Espírita da Corte, de autoria do jornalista Paulo Roberto Viola. Segundo Viola, Porto-Alegre manteve em segredo sua crença para não ser prejudicado em sua carreira, pois a ocupação de cargos públicos exigia juramento de fidelidade ao Catolicismo, então religião oficial do país.
Com Ana Paulina Delamare teve os filhos:
- Paulo (1842-?), engenheiro de minas e diplomata.
- Carlota (1846-1918), casada com o pintor Pedro Américo.
- Paulina (1852-1925), casada com Paul Faulhaber, ajudante de ordens do rei da Saxônia.
- Inácio Francisco (1854-1900), professor do Instituto Nacional de Música
- Ana.
- Manuel, diplomata.
- Maria Francisca, morta na infância.
- Maria Luiza, morta na infância.
Arte, história e a construção da nação



Aluno dos neoclássicos Debret e Grandjean de Montigny, no entanto estudou também no atelier de Antoine-Jean Gros e frequentou o Instituto Histórico de Paris, deixando-se influenciar por esses círculos, que reuniam grande parte da geração romântica parisiense, interessando-se por filosofias idealistas, historicistas e ecléticas. Era um apreciador do gótico e desde seu retorno ao país se envolveu no processo de fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Incentivado por Debret, passou a pesquisar os arquivos das igrejas fluminenses em busca de documentos que pudessem embasar seu projeto de escrever uma história da arte brasileira do período colonial. A palestra sobre a arte colonial que publicou em 1832 no Journal de l'Institute Historique, sob o título de "Etat des Beaux Arts au Brésil", inaugurou a reflexão teórica sobre arte no país. Na mesma revista publicou em 1839 o "Resumo da história da literatura, das ciências e das artes no Brasil", escrito em conjunto com Gonçalves de Magalhães e Torres Homem, já publicado na Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil de Debret. Este e o artigo "Memória sobre a Antiga Escola de Pintura Fluminense", que publicou em 1841 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, são os primeiros ensaios sobre a história das belas artes brasileiras.
Foi o aluno favorito de Debret, que parece ter querido transformar o aluno no intérprete do moderno Estado brasileiro, imbuindo-o de uma missão civilizadora e humanista. Autor de vários artigos publicados na imprensa e outros textos, como historiador e teórico de arte firmava-se no princípio de que as artes tinham um poderoso efeito civilizador e contribuíam para a educação e a evolução da sociedade; dava valor aos grandes exemplos do passado como modelo e inspiração, mas acreditava no progresso, o qual só seria alcançado com boa formação, boa informação e trabalho disciplinado. Procurou extrair da tradição europeia e da tradição brasileira as lições que poderiam ser úteis para a tarefa que ele e outros intelectuais da época se impunham de construir, através da arte e da palavra, o perfil simbólico e a imagem de uma nação nova, e ao mesmo tempo reconstruir sua identidade e a leitura da sua história. Combativo, polemista, sua tendência progressista às vezes chocou-se contra o conservadorismo do sistema de arte nacional.
Segundo Carlos Zilio, para Porto-Alegre, civilizar significava "incorporar as tendências dominantes da arte europeia, adaptando-as às particularidades brasileiras, não havendo nenhum tipo de incompatibilidade entre a formulação de um projeto de arte brasileira e a utilização de uma imagem que seria importada da Europa, porque essa imagem é a da civilização". Em 1853 enviou para o imperador Dom Pedro II uma proposta de reformulação do ensino na Academia e o ensaio Sobre os meios práticos de desenvolver o gosto e a necessidade das Belas-Artes no Rio de Janeiro, criticando a falta de apoio às artes e à arquitetura pelos governantes anteriores.
Era um defensor do sistema acadêmico, que em termos de metodologia de ensino era vanguarda, contrastando contra a tradição de ensino informal que ainda era a regra no Brasil. Para ele o gênio não bastava, era preciso também a cultura superior, a disciplina e o treinamento técnico dados pela escola formal. Para ele "as artes, e mui particularmente a arquitetura, têm a sua linguagem, a sua prática, e alguma coisa de mais sublime do que as concepções de um oficial prático". Além de servir às necessidades das artes, o acadêmico seria um auxiliar valioso na engenharia, no urbanismo e na indústria nacional. Como disse Paula Ferrari, a produção da Academia "salvaria os homens do esquecimento e também elevaria o futuro, numa prova material da civilização brasileira".
Teve a oportunidade de por em prática suas ideias através de sua atuação como professor e administrador, desempenhando um papel importante na organização e profissionalização do sistema de arte, e a ele se deve um grande impulso na efetiva implementação do sistema de ensino acadêmico no país proposto pela Missão Francesa em 1816. Foi professor de Desenho na Escola Militar, e de 1837 a 1848 foi titular da cadeira de Pintura Histórica na Academia Imperial, o gênero mais prestigiado, culto e completo. Diretor da Academia de 1854 a 1857, implementou a chamada Reforma Pedreira, buscando adequar a escola aos novos tempos, moralizar a instituição e harmonizá-la com o projeto político do Império. Ampliou o currículo, criou novas cadeiras, introduziu o ensino da aquarela, redefiniu o papel das artes manuais, dividiu o ensino em técnico e artístico para atender a diferentes necessidades do mercado, ampliou o prazo de permanência dos bolsistas no exterior de três para seis anos, ampliou o edifício da Academia e organizou a biblioteca, instituiu os cargos de restaurador de quadros e de conservador da pinacoteca.
A reforma estava vinculada a um amplo programa de reforma do ensino nacional, a chamada Reforma Couto Ferraz, que tinha como principal meta exercer um controle mais centralizado sobre as escolas e homogeneizar os métodos pedagógicos, inspirando-se em modelos europeus. No âmbito da Academia, a Reforma Pedreira fortaleceu o ensino da Pintura Histórica, gênero carregado de exigências morais e cívicas e responsável pela formação de um acervo visual da memória e da identidade nacionais, mantendo um constante diálogo com a ideologia do governo e do IHGB. Porto-Alegre exerceu uma grande influência sobre a primeira parte da carreira de Victor Meirelles e Pedro Américo, os principais pintores históricos da geração seguinte, criadores de ícones visuais úteis ao programa político do Segundo Reinado e ainda vivos na consciência coletiva do Brasil, como as telas Primeira Missa no Brasil, de Meirelles, e Independência ou Morte, de Américo. Já em termos estéticos, pregava que na Academia deveria ser preferido o cânone neoclássico francês de linha mais conservadora e racionalista, que, para ele, se adequava melhor às necessidades de representação da Monarquia, da Pátria e do virtuosismo civilizatório que deveriam caracterizar as artes nacionais naquele momento histórico. Suas ideias e atividade ajudaram a valorizar o status e definir o espaço de atuação social do artista.
Em discurso proferido na sessão plenária da Academia de 27 de setembro de 1855, apresentou 30 tópicos a serem debatidos pelos acadêmicos. Segundo Arthur Valle,
- "As sintéticas teses propostas por Porto-alegre, se por vezes beiram o fantasioso, demonstram, não obstante, a sua admirável sensibilidade para questões técnico/estéticas de grande envergadura e que, já delineadas no Brasil de meados do oitocentos, viriam a se tornar ainda mais prementes com o correr das décadas seguintes. Entre essas questões, podemos destacar: a real eficiência do ensino artístico centrado nas Academias, o estatuto e a orientação das diversas artes aplicadas, o desenvolvimento de repertórios ornamentais baseados em elementos da natureza americana, o aproveitamento de tipologias arquitetônicas autóctones, a formação de uma escola de arte brasileira e os problemas colocados pelo desenvolvimento de técnicas como a fotografia".
Sua obra pessoal em pintura é pequena e não exerceu grande impacto na história da arte brasileira, mas foi pintor oficial da família imperial e merecem nota os cenários e outros trabalhos decorativos que produziu para celebrações do Império, alegorias, paisagens e algumas obras históricas, como Juramento da Regência Trina (1831) e Coroação de Dom Pedro II (1844).
Obras
Deixou uma vasta produção escrita em vários gêneros, podendo ser citadas, entre muitas outras:
Poesia
- A Voz da Natureza (1837)
- Brasilianas:
- Brasiliana (1843)
- O Caçador (1843)
- Brasiliana (1844)
- O Voador (1844)
- A Destruição das Florestas (Brasiliana em três cantos) (1845)
- O Corcovado (1847)
- Canto Genetlíaco Sobre o Faustíssimo Dia 23 de Fevereiro de 1845 (1845, panegírico, dedicado ao imperador)
- O Jequitibá da Serra de Santa Anna (1847)
- Canto Inaugural (1859)
- Colombo (1866)
- Ao Dia Sete de Setembro de 1873 (1873)
Teatro
- Prólogo Dramático (1837) (com música de Cândido Inácio da Silva)
- Angélica e Firmino (1845) (comédia, estreada no Teatro São Pedro em 1861)
- Estátua Amazônica: Comédia Arqueológica (1851)
- A Restauração de Pernambuco (1856) (drama lírico com música de G. Gianinni, estreada parcialmente no Teatro Lírico Fluminense)
- A Noite de São João (1857) (drama lírico)
- Os Judas (1858) (comédia)
- Cenas de Penafiel (1858)
- O Prestígio da Lei (1859) (drama lírico com música de Francisco Manuel da Silva)
- A Escrava (1863) (drama)
- Calabar (1863) (drama)
- Os Lobisomens (1863) (comédia)
- Os Lavernos (1863)
- O Rei dos Mendigos (1866) (drama)
- Os Voluntários da Pátria (1877) (drama)
- D. Sebastião (s/d)
- Dinheiro é Saúde (s/d) (comédia)
- O Espião de Bonaparte (s/d) (comédia)
- O Sapateiro Politicão (s/d) (comédia)
- Os Toltecas (s/d) (tragédia)
Ensaios, biografia, outros
- Ensaio Sobre a Literatura no Brasil (1831)
- Estado das Belas Artes no Brasil (1832)
- Resumo da História da Literatura, das Ciências e das Artes no Brasil (1834-1839, com Torres Homem e Gonçalves de Magalhães)
- Ideias Sobre Música (1836)
- Relatório Sobre a Inscrição na Gávea (1839)
- Oração Fúnebre a José Silvestre Rabelo (1840) (panegírico)
- Apontamentos Sobre os Meios Práticos de Desenvolver o Gosto e a Necessidade das Belas Artes no Rio de Janeiro (1840)
- Discurso no Enterro do Conselheiro José Joaquim da Rocha (1843) (panegírico)
- A Igreja da Santa Cruz dos Militares (1845)
- O Marquês de Maricá (1849)
- Cenografia (1850)
- O Nosso Teatro Dramático (1851)
- Os Nossos Artistas (1851)
- Imperial Instituto dos Meninos Cegos (1854)
- Apontamentos Sobre a Vida e Obra do Padre José Maurício Nunes Garcia (1856)
- Discurso Proferido à Beira do Túmulo do Senador Francisco de Paula e Souza (1856) (panegírico)
- A Música Sagrada no Brasil (1858)
- Algumas Ideias Sobre Belas Artes (1858)
- Memória Sobre a Antiga Escola de Pintura Fluminense (1859)
- Estudos Sobre o Brasil Meridional (1865)
- Informação Sobre a Posição Comercial dos Produtos do Brasil em Portugal (1875)
- Autobiografia (publicação póstuma, 1920)
Legado

Envolvido em polêmicas diversas vezes, em sua morte seus obituários reconheciam ao mesmo tempo sua grandeza e versatilidade, e sua natureza irrequieta e inquisitiva. Em 1884 Antônio Xavier Rodrigues Cordeiro publicou um ensaio biográfico no Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, que circulou amplamente em todo o mundo lusófono e foi um marco na sua canonização na história da pintura e da literatura do Brasil.
Personalidade influente em seu tempo, muito ativo nas duas mais importantes instituições culturais do Império, a Academia (professor e primeiro diretor brasileiro) e o IHGB (orador oficial por 14 anos, secretário e vice-presidente), um dos principais porta-vozes do programa de criação de uma imagem e uma identidade para o Império, intelectual multifacetado, deixou um legado que transita em múltiplas frentes, da teoria à prática da arte, da música à história, da literatura épica e apologética à sátira e à crítica, da política à economia e à educação. Para o crítico Paulo Gomes, "sua importância no desenvolvimento das artes plásticas e da literatura no Brasil Imperial é inquestionável. Intelectual de primeiríssima linha, um homem de mil instrumentos, [...] ele avulta como um empreendedor afoito e arrojado e um intelectual de visão ampla e generosa". Nas palavras de Valéria Lima,
- "Ao longo de sua carreira, os embates entre uma formação clássica e o pensamento romântico foram uma constante, fornecendo a seus escritos uma complexidade que tem sido frequentemente indagada pelos estudiosos. Homem de letras tão familiarizado com os meios intelectuais europeus, nomeadamente franceses, viu-se na urgência (e no dever) de encontrar saídas próprias à evolução artística em seu país. [...] Na política, apesar de levantar a bandeira em defesa do elemento nacional e da autonomia do Brasil frente às influências estrangeiras, mostrou-se muito confortável na veste de um liberal moderado que tendeu, segundo algumas interpretações, para uma postura nitidamente conservadora".
Na análise de Carlos Zilio, que o considerou "uma espécie de síntese do intelectual brasileiro do século XIX",
- "Sua atitude como intelectual foi sempre diretamente ou indiretamente amparada pela monarquia e há nisso, sem dúvida, uma clarividência do Estado brasileiro, na medida em que Porto-Alegre realiza um projeto que oferece uma imagem ao poder identificada com a do país. Talvez Porto-Alegre acreditasse na autonomia e capacidade transformadora da estética sobre os regimes políticos, assim como os artistas neoclássicos, mas é mais provável que, a exemplo do neoclássico romanizado, tivesse fé nas possibilidades da monarquia como condutora de um projeto de arte. [...] O projeto civilizador de Porto-Alegre acaba delimitado pelas possibilidades estruturais brasileiras. Ele acredita no belo mas se compraz com o naturalismo; é romântico mas não permite a presença transgressora da emoção; admira o progresso mas não dimensiona o conservadorismo escravocrata do Segundo Reinado. Sua única possibilidade estava no meio-termo".
Sua memória permanece especialmente viva na cidade do Rio de Janeiro. Disse Nireu Cavalcanti que Porto-Alegre "foi responsável por um conjunto de obras fundamentais para a compreensão da arquitetura e da constituição do espaço urbano na cidade do Rio de Janeiro", e é "parte viva da história da cidade". Escreveu sobre arquitetura e urbanismo, projetou o Cassino Fluminense, atual sede do Automóvel Club do Brasil; fez a reforma do Palácio da Quinta da Boa Vista, dando-lhe sua forma definitiva, e fez os projetos do Banco do Brasil, da Escola de Medicina e da Alfândega. Durante seu mandato como vereador apresentou projeto de urbanização da rua do Cano, atual rua Sete de Setembro, prevendo a abertura da rua até a atual Praça Quinze, bem como o seu alargamento, instalação de sistema de esgotamento das águas pluviais, e construção de novas fachadas sobre galeria de pedestres em ambos os lados, à imitação da rua Rivoli, em Paris, para proteção dos pedestres das intempéries, uma solução adotada por Alfredo Agache em seu plano do Rio de 1926, para os prédios recuados no novo alinhamento.
Distinções e homenagens
Titulado barão de Santo Ângelo, era também grande dignitário da Ordem da Rosa, cavaleiro da Ordem de Cristo, comendador supranumerário da Ordem de Carlos III de Espanha, Cruz de Ferro de segunda classe, membro honorário do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, sócio do Instituto Histórico da França, da Academia da Arcádia, da Academia de Belas Artes de Paris, do Instituto Nacional de Washington, correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa, e membro de diversas outras sociedades artísticas, científicas e literárias.
Seus restos mortais foram repatriados em 2 de janeiro de 1930, sendo homenageado por cinco dias no Salão de Honra da Prefeitura de Porto Alegre, e depois sepultado definitivamente em Rio Pardo. Em 1943 o Instituto de Belas Artes batizou sua coleção artística como Pinacoteca Barão de Santo Ângelo. Em 1956, no sesquicentenário de seu nascimento, a Secretaria da Educação de Porto Alegre organizou eventos em sua homenagem. Em 1979 uma extensa programação celebrou os cem anos de sua morte.
É patrono da cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras e da cadeira 5 do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. É nome de rua na cidade do Rio de Janeiro.
Galeria
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Camponês italiano, aguada, 1835 -
Juramento da Regência Trina, óleo, 1831 -
Selva brasileira, aquarela, acervo do Museu Júlio de Castilhos -
Pietà, aguada, acervo do Museu Júlio de Castilhos -
Projeto para um cenário teatral, 1862 -
Uma Gruta, óleo, 1863
