Amélia de Orleães (nome completo em francês: Marie Amélie Louise Hélène d’Orléans; Twickenham, 28 de setembro de 1865 – Versalhes, 25 de outubro de 1951) foi a esposa do Rei D. Carlos I e a última Rainha Consorte "de facto" de Portugal e Algarves de 1889 até ao assassinato do marido em 1908. Foi mãe do Rei D. Manuel II, último monarca de Portugal, deposto pela Revolução de 1910.
Família e infância

Amélia era filha de Luís Filipe, Conde de Paris, neto do último rei dos Franceses, Luís Filipe I, e pretendente orleanista ao trono francês, e de Maria Isabel de Orleães. Através de sua irmã Luísa, Amélia é tia-avó do rei emérito Juan Carlos I da Espanha.
Nascida na Inglaterra durante o exílio da família de Orleães, Amélia passou parte de sua infância no país. O exílio havia sido imposto à família após Napoleão III assumir o poder na França, em 1848. Somente após a queda do Segundo Império Francês, em 1871, os Orleães puderam retornar à França. A princesa recebeu uma educação cuidadosa, semelhante àquela destinada às princesas das casas reinantes, embora seu pai fosse apenas pretendente à Coroa.
A princesa cresceu em grandes palácios e viajava frequentemente para a Áustria e Espanha. Demonstrava grande interesse pelas artes, especialmente pelo teatro e pela ópera. Era também uma leitora assídua e mantinha correspondência com alguns de seus autores favoritos. Além disso, possuía talento para a pintura.
Casamento



Antecedentes
Em 1884, Amélia realizou uma viagem pela Europa. A beleza e elegância da princesa francesa chamaram a atenção nas cortes espanhola e austríaca, onde foi recebida com grande interesse. Durante sua estadia em Munique, recebeu, alguns meses depois, um pedido de casamento de um príncipe bávaro, mas seus pais recusaram a proposta. A princesa também recebeu uma proposta de casamento do grão-duque Nicolau Mikhailovich, neto do czar Nicolau I da Rússia. No entanto, as relações entre a família Romanov e os Orleães eram pouco estreitas. Além disso, Amélia era católica, e seus pais não aceitaram que ela se convertesse à Igreja Ortodoxa Russa para se casar com o grão-duque.
Ainda em 1884, Clementina, Princesa de Koháry, tia paterna de Amélia, visitou a corte real em Lisboa, onde elogiou as qualidades de sua sobrinha à rainha D. Maria Pia, e apresentou ao herdeiro do trono, D. Carlos, Príncipe Real, uma fotografia da sobrinha, despertando o interesse do herdeiro. Em janeiro de 1886, D. Carlos viajou a Chantilly para conhecê-la pessoalmente. O encontro despertou uma atração mútua, e D. Carlos ficou convencido de seus sentimentos por Amélia, descrevendo-a em uma carta ao pai, o rei D. Luís I, como "a mais bela de todas as criaturas". Amélia também deixou-se encantar pelo Príncipe Real, apesar de registar o fato de ser mais baixo do que ela (D. Carlos media 1,76 m e Amélia 1,82 m).
O casal logo ficou noivo; o noivado foi celebrado em Paris, onde uma grande recepção foi realizada em homenagem à princesa. Mais de 2.000 carruagens foram necessárias para levar os convidados ao palácio. O luxo exibido pelos Orleães na ocasião e a cobertura dada por jornais monarquistas, em particular o artigo de Philippe de Grandlieu no Le Figaro, irritaram o governo republicano francês e culminaram na votação, em 22 de junho de 1886, de uma nova lei de exílio. Por conseguinte, os país de Amélia e outros membros da família foram forçados a deixar a França rumo à Inglaterra.
A propósito dessa união comentava-se na altura: "Pobre Amélia, é horrível deixar a França para se ir enfiar em tal buraco. Só há laranjeiras naquele país"
Chegada em Portugal
Amélia chegou a Portugal em 19 de maio de 1886, pela estação ferroviária de Vimieiro. Lá, trocou de roupa, vestindo um vestido de seda azul e branco e um chapéu nas cores da bandeira do reino. Amélia não era de uma beleza extraordinária, mas sua altura imponente (1,80 m), seus cabelos escuros e seus olhos castanhos impressionaram os espectadores portugueses. Da estação, a princesa e sua comitiva seguiram para o Palácio das Necessidades, em Lisboa. Mais tarde veio a saber que pisou o solo português com o pé esquerdo, o que era um mau presságio. Na véspera de seu casamento, Amélia visitou a capela do palácio para se confessar e rezar.
O casamento real foi celebrado três dias após a chegada de Amélia, em 22 de maio, na Igreja de São Domingos, em Lisboa. O dia estava ensolarado, e as ruas estavam tomadas por pessoas que aguardavam a passagem da família real. Às 14h10, a noiva chegou à igreja acompanhada pelo pai. A Condessa de Paris seguiu-os e foi conduzida ao altar pelo noivo, ao som do Hino da Carta, o hino nacional do Reino de Portugal. Havia grande expectativa em torno do vestido de Amélia. A princesa usava um vestido de noiva branco, confeccionado em seda faille e com uma longa cauda. O véu de renda havia sido presente de amigos franceses. Na cabeça, usava uma grinalda de flores de laranjeira e não portava joias.
Após uma breve lua de mel na bucólica e romântica cidade de Sintra, o jovem casal foi morar no Palácio de Belém. Acerca da sua noite de núpcias afirmou: "meu marido soube vencer a minha timidez com palavras e carícias, tão pacientes quão delicadas…"
Vida em Portugal

Os primeiros anos do casamento de D. Amélia e D. Carlos foram felizes. Em 1886, ela engravidou do primeiro filho, D. Luís Filipe, nascido em 21 de março de 1887 após um parto prolongado que causou apreensão entre a família e os cortesãos.
Em 1887, o casal realizou sua primeira viagem oficial, a Londres, para participar das comemorações do Jubileu de Ouro da Rainha Vitória. Durante a viagem, D. Amélia reencontrou familiares franceses exilados na Inglaterra e, em Edimburgo, anunciou sua segunda gravidez. Ao retornar a Portugal, porém, enfrentou críticas da imprensa republicana, que a acusava de interferência política, vaidade e falsa benevolência. Um artigo do Comércio do Minho, de Braga, provocou um escândalo e levou manifestantes a destruírem a redação do jornal.
Ainda em 1887, a família permaneceu no Paço Ducal de Vila Viçosa, onde D. Luís Filipe quase morreu em um incêndio. D. Amélia entrou no quarto em chamas e retirou o filho. Em dezembro, sofreu um parto prematuro de sua filha D. Maria Ana, que faleceu pouco depois do nascimento. A perda afetou profundamente D. Amélia e contribuiu para o agravamento de seus problemas de saúde, dos quais nunca se recuperaria completamente.
Em 1888, com a deterioração da saúde do rei D. Luís I, D. Carlos assumiu temporariamente a regência durante a viagem do monarca pela Europa. O período ofereceu a D. Amélia uma primeira experiência de seu futuro papel como rainha, mas também foi marcado por críticas à família real; a imprensa atacava D. Maria Pia por seus hábitos e D. Carlos por seus relacionamentos extraconjugais, enquanto D. Amélia era criticada por sua vaidade e pelo interesse pela moda francesa.
Rainha




Em 1889, D. Carlos e D. Amélia passaram algumas semanas na Espanha, onde praticaram caça. D. Amélia retornou a Portugal grávida. Pouco depois, faleceu o rei D. Luís I. Após a morte do sogro, D. Amélia escreveu à rainha D. Maria Pia reafirmando seu respeito por ela como rainha e mãe. Mais tarde, já como rainha, mandou instalar uma linha telefônica privada no Palácio das Necessidades para manter contato com D. Maria Pia. Em novembro de 1889, D. Amélia deu à luz seu segundo filho, D. Manuel II. Em 28 de dezembro, D. Carlos prestou juramento e foi aclamado Rei de Portugal como Carlos I.
Durante os primeiros anos do reinado, D. Amélia perdeu o avô, Antônio, Duque de Montpensier, e, cinco anos depois, o pai. Os filhos do casal passaram parte da infância em Vila Viçosa e mantinham contato frequente com a mãe por correspondência, inclusive sobre atividades de caça.
Em 2 de outubro de 1895, D. Carlos iniciou uma série de visitas oficiais à Espanha, França, Alemanha e Reino Unido, com o objetivo de fortalecer as relações diplomáticas portuguesas. A visita ao Reino Unido ocorreu cinco anos após o Ultimato britânico de 1890, que havia exigido a retirada de Portugal dos territórios entre Angola e Moçambique. O episódio havia provocado forte oposição em Portugal. A recepção cordial de D. Carlos pelo Rei Eduardo VII durante a visita foi criticada por setores monarquistas e republicanos, e alguns jornais o chamaram de "Traidor". Durante a viagem de D. Carlos, D. Amélia permaneceu em Lisboa como regente. Além das funções oficiais, mantinha um diário pessoal.
D. Carlos possuiu diversos iates, entre eles o Nautilus, o Aura, embarcações chamadas Amélie e, posteriormente, o Lia. Este último era utilizado frequentemente por D. Amélia, que o chamava de "minha outra casa".
Regicídio de 1908
No final de 1907, D. Carlos e D. Amélia realizaram uma visita oficial à França acompanhados pelos filhos. A viagem transcorreu normalmente, e Amélia aproveitou a ocasião para retornar ao país onde havia nascido.
Em janeiro de 1908, a família retornou a Portugal e passou alguns dias em Vila Viçosa, no Alentejo. Em 1 de fevereiro, durante o retorno a Lisboa, os soberanos e os filhos viajavam em um landau pela Praça do Comércio quando foram atacados por dois membros de grupos republicanos. A reação de D. Amélia, no momento do regicídio, foi brandir o ramo de flores que trazia na mão e gritar com um dos regicidas: "Infames, infames!", para que recuasse.
D. Carlos I e seu filho mais velho, D. Luís Filipe, foram mortos no atentado. D. Amélia permaneceu de pé na carruagem e tentou proteger o filho mais novo, D. Manuel. Durante o ataque, atingiu um dos atiradores com o buquê que carregava. D. Manuel sobreviveu e sucedeu ao pai como Rei de Portugal, com o título de D. Manuel II.
Abolição da monarquia e vida posterior


Revolução de 1910
Na madrugada de 4 para 5 de outubro de 1910, D. Amélia encontrava-se no Palácio da Pena, em Sintra, quando foi informada sobre o avanço da revolução republicana. A família real estava então em diferentes localidades nos arredores de Lisboa: a rainha D. Maria Pia encontrava-se no Estoril, D. Manuel II no Palácio das Necessidades e D. Afonso, irmão de D. Carlos, em Cascais. O chefe da Casa Militar foi quem comunicou a D. Amélia o desenrolar dos acontecimentos e a iminência da implantação da República.
No dia seguinte, a família real deixou Portugal em direção ao exílio. A partida ocorreu pela praia da Ericeira, onde pescadores e camponeses acompanharam a saída a partir das falésias.
Exílio
Amélia seguiu para o exílio com a família real portuguesa, inicialmente para Londres, na Inglaterra. Após o casamento de D. Manuel II com Augusta Vitória de Hohenzollern-Sigmaringen, passou a residir no Castelo de Bellevue, próximo a Versalhes, onde permaneceu até sua morte. Durante a Primeira Guerra Mundial, D. Amélia trabalhou para a Cruz Vermelha, atividade pela qual recebeu uma condecoração do rei Jorge V do Reino Unido.
Em 1932, D. Manuel II morreu inesperadamente em Twickenham, no mesmo subúrbio londrino onde a sua mãe tinha nascido.
Em 1940, durante a ocupação alemã da França, soldados alemães ocuparam sua residência. O governo português, por iniciativa de António de Oliveira Salazar, solicitou que o imóvel fosse considerado território português e ofereceu a D. Amélia a possibilidade de se refugiar em Portugal. Ela recusou, afirmando: "Na minha desgraça, a França acolheu-me; não a abandonarei na desgraça dela."
Em 1945, D. Amélia retornou a Portugal a convite de Salazar, 35 anos após o exílio. Durante a visita, esteve em Lisboa e no Palácio da Pena, em Sintra. Não visitou Vila Viçosa nem a Igreja de São Domingos, onde havia se casado com D. Carlos. Durante a visita, encontrou-se com Salazar, cuja personalidade descreveu como austera e reservada.
Em 1949, D. Amélia fez uma adenda ao seu testamento, deixando a totalidade dos bens que possuía em Portugal ao seu afilhado, D. Duarte Pio, a pedido de Salazar.
Morte
Em 25 de outubro de 1951, a ex-rainha de Portugal D. Amélia faleceu em sua residência, em Versalhes, aos 86 anos. A causa da morte foi uremia. O falecimento ocorreu às 9h35. Entre suas últimas palavras, teria dito: "Sofro tanto! Deus está comigo. Adeus. Levem-me para Portugal!"Seu corpo foi trasladado pela fragata Bartolomeu Dias para Portugal e sepultado junto ao marido e aos filhos, no Panteão Real da Dinastia de Bragança, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. Esse havia sido seu último desejo. O funeral recebeu honras de Estado e foi acompanhado por grande número de pessoas em Lisboa.
Títulos, estilos, e honras

Títulos e estilos
- 28 de Setembro de 1865 – 22 de Maio de 1886: "Sua Alteza Real, a Princesa Amélia de Orleães"
- 22 de Maio de 1886 – 19 de Outubro de 1889: "Sua Alteza Real, a Princesa Real de Portugal, Duquesa de Bragança, etc."
- 19 de Outubro de 1889 – 1 de Fevereiro de 1908: "Sua Majestade Fidelíssima, a Rainha"
Honras
Portuguesas
Estrangeiras
- Dama da Ordem das Damas Nobres da Espanha
- Grande Dama de Honra e Devoção da Ordem Soberana e Militar de Malta
- Dama da Ordem da Cruz Estrelada
- Grande Cruz da Ordem de Santa Catarina
Em 1892, Amélia recebeu a Rosa de Ouro do Papa Leão XIII.
